segunda-feira, 25 de abril de 2011

...e Calvino era calvinista?


Acabo de ler na internet dois artigos sobre o hipercalvinismo. No primeiro, o autor define o termo como “a negação de que a ordem do Evangelho de se arrepender e crer deve ser pregada a todos, sem exceção” (artigo “O que é hiper-calvinismo?”, de Ronaldo Hanko). Mas este é apenas um dos pontos da questão, conforme será abordado no decorrer deste escrito. O segundo artigo diz: “Será que Calvino era calvinista? Claro que não.

Ele era bíblico e suportou alcunhas bem piores dos hereges romanos” (artigo “A Bíblia é hiper-calvinista ou Calvino é hiper-bíblico?”, de Nuno Pinheiro). Na verdade, Calvino era menos calvinista do que grande parte de seus discípulos. Aliás, calvinismo é nada mais do que agostinianismo requintado com os inteligentes argumentos do maior teólogo da Reforma Protestante, João Calvino, cujo nascimento há 400 anos é comemorado efusivamente em 2009, tanto por calvinistas como por não-calvinistas. O pensamento de Calvino, à semelhança dos expostos por Agostinho de Hipona, partiam da soberania de Deus para desembocar na doutrina da eleição, e não o inverso como alguns colocam. Ao mencionar o perigo do hipercalvinismo, que foi uma deturpação do pensamento de Calvino desenvolvida na primeira metade do século 18, destacamos a seguir dois itens inclusos no hipercalvinismo.

Antinomianismo

O termo antinomianismo significa “contra a lei” e defende que não existe lei ou regra de conduta, tendo em vista que somos predestinados por Deus, e por isso as nossas atitudes boas ou más não vão prejudicar a nossa eleição. Em outras palavras, o procedimento do cristão nada tem a ver com o seu status de eleito ou predestinado para a salvação. É um problema ético que se coloca em oposição ao Evangelho de Cristo, assim como nega o que Calvino ensinou e viveu. Calvino era tão correto em sua conduta que foi apelidado na Universidade de Paris como “caso acusativo”. Na sua primeira estada em Genebra, o jovem Calvino exigiu vida correta dos seus “paroquianos”. Como muitos deles eram membros do Conselho Municipal e estavam sujeitos à punição, ele terminou por ser expulso da cidade. Quando Calvino retornou a Genebra, o consistório, que era parte do seu sistema eclesiástico e formado de pastores e presbíteros, tinha a responsabilidade de julgar e punir os que viviam distante dos padrões morais e espirituais que o Evangelho nos ensina. Ao falar em sacramento, Calvino o definiu como “um sinal externo com um testemunho correspondente de nossa piedade para com ele” (Christianae religionis institutio, Calvini opera II, capítulo IV, livro IV, p. 31s). O termo “piedade” pode ser definido como religiosidade ou devoção, que não existe sem estarmos em contato com o Ser Supremo, o qual requer pureza dos seus adoradores. Daí a posição de Calvino favorável a uma vida digna do Evangelho de Cristo.

Também todo o Novo Testamento fala sobre a “santidade” dos cristãos, pois Deus nos escolheu “antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Efésios 1.4). Aquele que aceita Jesus Cristo como seu Salvador tem a experiência do novo nascimento e, embora continue pecando (no aoristo grego), não tem prazer em permanecer no pecado (no presente grego). Deus, que nos salvou, é também nosso advogado (1 João 2.1) e ao mesmo tempo juiz, através de Jesus Cristo. No caso de pecarmos (de forma circunstancial e não permanente) podemos confessar a Deus e “ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9).

Pregação do Evangelho

O segundo item relacionado ao calvinismo é sobre a nossa responsabilidade para pregar o Evangelho. O hipercalvinismo não vê necessidade de se realizar evangelismo ou missões, pelo que afirma: “Uma vez que Deus já escolheu os seus eleitos, não somos nós com a pregação do Evangelho que vamos mudar os desígnios divinos”. Essa era a ideia generalizada na primeira metade do século 18, inclusive atingindo fortemente os Batistas Particulares na Inglaterra (“A history of the Baptists”, de Robert G. Torbet). Todavia, pouco a pouco o assunto foi sendo jogado por terra, graças ao Grande Avivamento de João e Carlos Wesley e Jorge Whitefield. O interessante é que pesquisas comprovam ter havido mais pessoas ganhas para Cristo através do pregador calvinista Jorge Whitefield do que por intermédio do outro grande líder avivamentalista, João Wesley, que era arminiano.

Embora não haja documentos históricos que comprovem a veracidade do relato a seguir, conta-se que, quando o jovem Guilherme Carey se levantou em uma reunião de batistas calvinistas para falar sobre o dever de pregar o Evangelho aos pagãos, o experiente pastor e líder João Ryland teria dito: “Sente-se, jovem, no dia em que Deus quiser salvar os pagãos ele mesmo tomará as providências sem a sua ajuda e a minha”. Esse era o espírito do hipercalvinismo, que grassava fortemente na ocasião. O estudioso Carey se sentiu encorajado pela obra de seu companheiro André Fuller, publicada em 1785, “O Evangelho digno de toda a aceitação”, na qual é mantida a posição calvinista, mas é também mencionado “que é dever de todo ministro de Cristo clara e fielmente pregar o Evangelho a todos”. Os dois, juntamente com o próprio Ryland mencionado acima e João Sutcliff, prosseguiram no ideal missionário e organizaram a Sociedade Missionária Batista Britânica, em 02 de outubro de 1792, quando foi iniciada uma nova era de missões protestantes no chamado movimento de missões modernas (“A history of the English Baptists”, de A. C. UNDERWOOD). Vejam bem! Não foram arminianos, nem hipercalvinistas que começaram o movimento de missões modernas, mas batistas calvinistas moderados, iluminados pelo Espírito de acordo com o texto em Isaías 54.2: “Alarga o espaço da tua tenda; estenda-se o toldo da tua habitação, e não o impeças; alonga as tuas cordas e firma bem as tuas estacas”.

Considerações sobre Calvino e a eleição

São os homens que confundem os termos bíblicos “eleitos” e “predestinados”, e concluem que “eleição” e “livre-arbítrio” são pontos contraditórios. A eleição de homens e mulheres e o chamado para servi-lo são itens ligados a um Deus presciente, que não tira a responsabilidade deles se arrependerem e crerem. Esta escolha não está condicionada à contingência finita, mas é fruto da sabedoria infinita do Senhor. Deus escolheu Israel como o povo de Deus, mas nem todos os israelitas estavam eleitos para a salvação (Romanos 9.1-16).

Semelhantemente, Deus escolheu através de Cristo a Igreja “dos primogênitos arrolados nos céus” (Hebreus 12.23), que é o “corpo” de Cristo (Efésios 1.23), “coluna e baluarte da verdade” (1 Timóteo 3.15). Entretanto, nem todos os membros da igreja instituição, incluindo a igreja local, são eleitos de Deus. Na verdade, Cristo morreu por todos (posição arminiana), mas nem todos são alcançados pela graça de Deus. Será isso difícil de entender? O homem, imago Dei, foi criado com livre-arbítrio, mas por causa do pecado ele está condenado à perdição. Deus é justo, pelo que ofereceu a todos os homens a oportunidade de salvação. Mas só são eleitos para a salvação os que creem.

Deus não tem de nos prestar contas pelo que ele tem feito, escolhendo-nos para sermos santos e irrepreensíveis e nos predestinando para sermos filhos adotados, “antes da fundação do mundo” (Efésios 1.4-5). Afinal de conta, somos nós que teremos de prestar contas a Deus (Romanos 14.12) e seremos julgados pelo que fizemos ou deixamos de fazer (Apocalipse 20.12-13). Assim, pela misericórdia do Senhor somos salvos, sendo os réprobos condenados pelo decreto eterno de Deus.

A presciência de Deus não tira a responsabilidade que foi entregue à sua Igreja, para anunciar o Evangelho de Cristo em todo o mundo (Atos 1.8). Segundo Calvino, “visto que apenas Deus sabe quem elegeu e quem não elegeu para a salvação, nós pregamos o Evangelho indiscriminadamente, confiando ao Espírito Santo seu uso como meio externo para o chamado efetivo daqueles mesmos que foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo” (“Teologia dos reformadores”, de Timothy George).

O tempo de Deus é um só, sem as contingências de passado, presente e futuro. Ele é eterno e para ele não existe ontem nem amanhã. Jamais entenderemos os seus mistérios, como não compreendemos a eternidade e o infinito. “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos. Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?” (Romanos 11.33-34). Tendo o homem sido criado à imagem e semelhança de Deus, ele tem livre-arbítrio. São salvos aqueles que já são conhecidos de Deus e que se arrependem e creem. Não há outro Evangelho. Portanto, é mister sermos fiéis no cumprimento da missão que ele colocou para a sua Igreja aqui na terra. Não há outra alternativa para compreendermos o Evangelho, mesmo sendo limitados para penetrar na grandeza do Deus infinito.

Conclusão

Até mesmo o amor de Deus não pode ser medido pelo ser humano, embora possamos vivê-lo hoje e eternamente. O maravilhoso em tudo isso é que Deus nos ama e pela sua graça nos salvou mediante a nossa fé, para que o servíssemos como discípulos seus, fazendo novos discípulos (Mateus 28.19-20). “Assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.17-19). Perceberam? O amor de Cristo vai além do nosso conhecimento, mas podemos estar nele alicerçados e saber quão grandioso ele é. Assim, mesmo sem entender este Deus eterno e infinito, estamos seguros em Cristo para sempre, pois, acima de tudo, a eternidade e a infinitude de Deus se resumem na expressão: “Deus é amor”.

“O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade” (João 1.14), permitindo que a grandeza do amor, que excede o nosso entendimento (intelectual), fosse por nós compreendida (espiritualmente) pela fé, desde o momento em que Cristo passou a morar em nosso coração. É por isso que Calvino falou sobre a segurança dos salvos ou certeza da salvação, segundo a expressão paulina: “Porque estou bem certo de que (nada) poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8.38-39). Aleluia! “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Efésios 3.20-21).

* Ao contrário do que foi publicado na primeira parte do artigo, em 2009 são comemorados os 500 anos do nascimento de Calvino, não os 400.

ZAQUEU MOREIRA DE OLIVEIRA

Pastor, escritor e professor do STBNB

Fonte: http://www.ojornalbatista.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1422&Itemid=33

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