segunda-feira, 13 de junho de 2011

Protestantes Evangélicos Torturados na Ditadura Militar do Brasil

Por Rodrigo L. Albuquerque|Repórter do The Christian Post

O Projeto Brasil: Nunca Mais, o maior registro histórico sobre a repressão e tortura na ditadura militar até agora guardados no exterior chegam ao país desvendando os tempos negros dos protestantes históricos que sofreram tortura no país da época da ditadura militar, como informou a Isto é.
Anivaldo Padilha
(Foto: Isto é)
Um dos líderes evangélicos torturados, Anivaldo Padilha, 71 anos disse que sofreu 20 dias de tortura nos porões do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo.
Um dos líderes evangélicos torturados, Anivaldo Padilha, 71 anos disse que sofreu 20 dias de tortura nos porões do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo.

O então estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP), da Igreja Medodista, tinha 29 anos quando foi preso pelo órgão do Exército, para ser torturado e dar o nome de todos os seus amigos e endereços.
“‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” dizia ele que sofreu tortura de pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos.

Ele conta que conseguiu manter o silêncio e depois disso foi para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos. Muitos evangélicos, entretanto, depois de mesma tortura acabaram colaborando com a máquina repressora da ditadura, delatando irmãos da Igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando.

Padilha descobriu quem foram os seus delatores quando teve acesso aos documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos.

“Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha.

Outros, no exercício de sua fé se tornaram alvo dos militares, quando líderes conservadores recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas, presbiterianos que tinham idéias liberais contra a ditadura.

“Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro.

Houve também um alto grau de envolvimento das lideranças do protestantismo no Brasil. Segundo a tese de pós-graduação pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), de Daniel Augusto Schmidt, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías revelou em seu diário que era informante do Dops.

“Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.”
O filho de Sucasas desconhecia a prisão de Padilha e diz não acreditar que seu pai fora informante do Dops. “Nunca o papai iria dedar um membro da Igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).”

Já o sobrinho do delator, que defendeu muitos perseguidos políticos, se decepcionou ao saber que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos
militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”

Entre os religiosos que se tornaram mais que delatores e fizeram até tortura estava o pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento.”
Para esquecer a tortura foi difícil ou impossível para todos eles, no entanto, homens como Anivaldo Padilha trilharam o caminho do perdão tanto dos delatores quanto dos torturadores.

As histórias serão resolvidas a partir desta terça-feira 14, quando haverá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais, que foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização com sede em Genebra, Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA). O material foi enviado para lá como precaução caso caísse nas mãos dos militares.

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