quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O SALMO DE JESUS, SEGUNDO PAULO

O salmo 18 é extremamente importante no desenvolvimento da consciência da salvação na mente de Paulo.
A leitura de Romanos demonstra isso de modo cabal.
Não é preciso ser um expert para ficar sabendo disto, basta ler as “referências” no rodapé da Bíblia na Carta aos Romanos, e você verá os textos do V. Testamento de onde foram “retiradas”, e lá está o salmo em questão.
Quem lê o salmo 18 em qualquer Bíblia, verá que antes da “leitura” há um texto que diz que aquele salmo de Davi foi escrito como uma celebração pela libertação total que ele julgara ter recebido de Deus quando derrotou seus inimigos—incluindo Saul, que em morrendo pelas mãos de outros, abriu o caminho para o estabelecimento do reino de Davi.
Não há nada de errado com o salmo de Davi, como não há com nenhum outro. Ao contrário, o salmo 18 é maravilhoso. No entanto, algumas coisas precisam ser ditas antes que se o leia.
A primeira é que Davi não ficou livre de seus inimigos, como parece “sentir” no momento.
Cada vitória merece sua gratidão. E, muitas vezes, a celebração de um momento só se fará conhecer em plenitude muito tempo depois.
De fato, Davi apenas venceu batalhas. Seus maiores e piores inimigos eram os de sua própria casa, realidade que ele, quando escreveu o salmo, ainda não havia conhecido; pois suas grandes catástrofes ainda estavam por vir.
A segunda coisa a se saber é que o salmo é imensamente maior que Davi. Contido exclusivamente à figura histórica de Davi o salmo teria que ser entendido, em algumas de suas porções, como um delírio megalomaníaco.
No entanto, conforme Paulo, o salmo se aplica e se realiza em plenitude apenas e tão somente na vida e vitória de Jesus sobre a morte, e no anuncio dessa vitória como Boa Nova a todos os homens.
Quero agora que você leia o salmo 18 a partir da mente de Paulo, e que tente entendê-lo como uma oração do Messias.
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Eu te amo, ó Senhor, força minha.
O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refúgio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio.
Invoco o Senhor, que é digno de louvor, e sou salvo dos meus inimigos.
Laços de morte me cercaram, e torrentes de perdição me amedrontaram.
Correntes da morte me amarraram, tramas de morte me apanharam.
Na minha angústia invoquei o Senhor, sim, gritei por socorro ao meu Deus. Ele ouviu a minha voz; o clamor que eu lhe fiz penetrou os seus ouvidos.
Então a terra se abalou e tremeu, e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto ele se indignou.
Das suas narinas subiu fumaça, e da sua boca saiu fogo devorador; dele saíram brasas ardentes.
Ele abaixou os céus e desceu; trevas espessas havia debaixo de seus pés.
Montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento.
Fez das trevas o seu retiro secreto; o pavilhão que o cercava era a escuridão das águas e as espessas nuvens do céu.
Do resplendor da sua presença saíram, pelas suas espessas nuvens, saraiva e brasas de fogo.
O Senhor trovejou a sua voz; e havia saraiva e brasas de fogo. Despediu as suas setas, e os espalhou; multiplicou raios, e os perturbou.
Então foram vistos os leitos das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo, à tua repreensão, Senhor, ao sopro do vento das tuas narinas.
Do alto estendeu o braço e me tomou; tirou-me das muitas águas.
Livrou-me do meu inimigo forte e daqueles que me odiavam; pois eram mais poderosos do que eu.
Assaltaram-me no dia da minha calamidade, mas o Senhor foi o meu amparo.
Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque tinha prazer em mim.
Recompensou-me o Senhor conforme a minha justiça, retribuiu-me conforme a pureza das minhas mãos.
Pois tenho guardado os caminhos do Senhor, e não me apartei perversamente do meu Deus.
Porque todas as suas ordenanças estão diante de mim, e nunca afastei de mim os seus estatutos. Também fui irrepreensível diante dele, e me guardei da iniqüidade.
Daí retribuir-me o Senhor segundo a minha justiça, conforme a pureza de minhas mãos perante os seus olhos.
Para com o benigno te mostras benigno, e para com o homem íntegro te mostras íntegro. Para com o puro te mostras puro, e para com o perverso te mostras inflexível.
Porque tu livras o povo aflito, mas os olhos altivos tu os abates.
Sim, tu fazes resplandecer a minha lâmpada; o Senhor meu Deus alumia as minhas trevas.
Com o teu auxílio dou numa tropa; com o meu Deus salto uma muralha.
Quanto a Deus, o seu caminho é perfeito; a promessa do Senhor é provada; ele é um escudo para todos os que nele confiam.
Pois, quem é Deus senão o Senhor? e quem é rochedo senão o nosso Deus?
Ele é o Deus que me cinge de força e torna perfeito o meu caminho; faz os meus pés como os das corças, e me coloca em segurança nos meus lugares altos.
Adestra as minhas mãos para a peleja, de sorte que os meus braços vergam um arco de bronze.
Também me deste o escudo da tua salvação; a tua mão direita me sustém, e a tua clemência me engrandece.
Alargas o caminho diante de mim, e os meus pés não resvalam.
Persigo os meus inimigos, e os alcanço; não volto senão depois de os ter consumido.
Atravesso-os, de modo que nunca mais se podem levantar; caem debaixo dos meus pés.
Pois me cinges de força para a peleja; prostras debaixo de mim aqueles que contra mim se levantam.
Fazes também que os meus inimigos me dêem as costas; aos que me odeiam eu os destruo. Clamam, porém não há libertador; clamam ao Senhor, mas ele não lhes responde. Então os esmiúço como o pó diante do vento; lanço-os fora como a lama das ruas.
Livras-me das contendas do povo, e me fazes cabeça das nações; um povo que eu não conhecia se me sujeita.
Ao ouvirem de mim, logo me obedecem; com lisonja os estrangeiros se me submetem.
Os estrangeiros desfalecem e, tremendo, saem dos seus esconderijos.
Vive o Senhor; bendita seja a minha rocha, e exaltado seja o Deus da minha salvação, o Deus que me dá vingança, e sujeita os povos debaixo de mim, que me livra de meus inimigos; sim, tu me exaltas sobre os que se levantam contra mim; tu me livras do homem violento.
Pelo que, ó Senhor, te louvarei entre as nações, e entoarei louvores ao teu nome.
Ele dá grande livramento ao seu rei, e usa de benignidade para com o seu ungido, para com Davi e sua posteridade, para sempre.
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Depois dessa oração Davi viria a conhecer o incesto em sua família, o fraticídio entre seus filhos, o adultério maquiavélico que praticou com a mulher de Urias—culminando na morte deste—, a soberba que quase o levou a assistir o Anjo do Senhor destruir Jerusalém; e a sublevação de Absalão, seu filho, que traspassou seu coração como uma espada gelada de angustia, e culminou com a morte do filho pelas mãos dos guerreiros do próprio pai: o angustiado Davi.
Absalão! Absalão! Meu filho, Absalão!—era deu grito de dor ante a noticia da morte do mais belo homem de Israel, e que chegara como boa nova para uns, e desespero para o pai.
Quando Davi orou o salmo certamente tinha razões para estar grato. Mas sua oração de agradecimento não enxergava a Graça que ele pronunciava sem ainda divisar em plenitude.
Quando Paulo toma o salmo e o re-lê “em Cristo”, então percebe que no “Filho de Davi” aquela oração havia sido cabalmente respondida, sem exageros e sem hipérboles.
Todavia, a leitura do salmo, “em Cristo”, também nos ensina como ler a Escritura com os olhos do apóstolo Paulo.
Em Cristo, quando a referencia de Jesus e do Evangelho são o eixo, não há como se cometer “erros de interpretação”.
Jesus é a chave hermenêutica para a compreensão da Bíblia. E ao dizer isto, digo apenas que tendo a Encarnação—conforme revelada no Evangelho—como nossa baliza interpretativa, as questões de natureza hermenêutica se tornam pequenas e irrelevantes.
Heresia é ler qualquer texto da Escritura sem fazê-lo a partir da consciência da Encarnação.
Paulo nos ensina como ler o V. Testamento.
Em Romanos ele cita o Gênesis—com bastante “liberdade”—e entra nos salmos, passeia por Isaías, Oséias, Jeremias, Joel, Levítico, Deuteronômio, etc...tudo sem as preocupações dos “comentaristas” profissionais.
Se fossemos aplicar os critérios hermenêuticos contemporâneos, Paulo não poderia ensinar hermenêutica nos “melhores seminários”.
O que aprendemos com isso?
A letra mata!
O Espírito é o que vivifica!
Quem está centrado na revelação do Cristo Encarnado, nunca conseguirá ser herético, mesmo que sua hermenêutica não seja conforme a “cartilha” dos escribas e mestres de nosso tempo.
Sem o “eixo” da revelação em Cristo, todavia, qualquer sistematização, por mais “lógica” que nos pareça, sempre nos conduzirá para fora do “espírito da Palavra”, mesmo que seja considerada “ortodoxa”.
A verdadeira ortodoxia é leve como o vento, e só acontece quando se anda no Espírito.
Quem desejar me contradizer, convide-me para uma discussão em qualquer Casa de Teólogos de qualquer lugar do mundo.
Eu sei o que digo!
Quem tiver certeza diferente, convide-me para o debate.
Irei na mesma hora!...
É do Evangelho da Graça que estamos falando.

Caio

Manaus

Agosto de 2003

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