terça-feira, 17 de setembro de 2013

VIAGEM À IGREJA DOS INÍCIOS


No ano de 1998 o Senhor nos deu o texto abaixo
que agora novamente compartilho com os amados.
Ivo Prado
 

VIAGEM À IGREJA DOS INÍCIOS

Naquela noite, o Senhor me concedeu que em sonhos viajasse no tempo para conhecer lá no passado o modo de vida dos servos do Senhor, da igreja dos primeiros séculos que hoje muitos chamam impropriamente de "primitiva".

A cidade escolhida foi Roma. Andamos muito em busca do edifício de uma grande igreja cristã. Gastamos a sola de nossas sandálias de tanto caminhar. Indagamos mil vezes e ninguém sequer conhecia qualquer prédio com as características por nós descritas. Por várias vezes encontramos até pessoas que se diziam cristãs, mas nem estas tinham resposta para as nossas indagações.

Pensativos e quase desanimados, já quase ao escurecer, perguntamos àquelas pobres, porém amáveis pessoas que se diziam cristãs qual era afinal a igreja onde se reuniam. Responderam que não se reuniam em um lugar chamado igreja mas participavam de uma igreja que se reunia numa pequena casa bem próximo de onde estávamos. Demonstrando grande amor e carinho, foram comigo à casa de Áquila onde sua esposa Priscila lideraria a reunião de um grupo de discípulos naquela noite.

Fomos recebidos pelo grupo reunido de um modo muito carinhoso. Observamos a casa e notamos a sua simplicidade. A reunião era realizada ao lado de um cômodo onde havia uma pequena fábrica de tendas da qual o casal tirava a sua subsistência. As famílias presentes se saudavam e contavam o acontecido nos dias anteriores, suas lutas, problemas e vitórias. Cantaram alguns cânticos com a voz bem baixa, quase murmurando para não chamar a atenção de alguns soldados que às vezes passavam pelas ruas próximas. Durante os cânticos pudemos sentir a adoração fluindo do interior daquelas pessoas, falavam do grande amor a Jesus Cristo, Senhor de suas vidas, por quem viveriam e morreriam. Ao toque dos irmãos, os enfermos eram curados, pessoas recebiam dons espirituais, os amargurados e tristes eram consolados.

Com lágrimas nos olhos todos se assentaram em um círculo. Éramos cerca de vinte e duas pessoas que superlotavam a casa. A irmã Priscila tomou a palavra. Esperávamos que faria um grande e refinado sermão, no entanto suas palavras foram dirigidas a cada pessoa às quais permitiu e incentivou abrirem seus corações. As pessoas não tinham Bíblias, nem revistas, nem cantores, aliás, a maioria nem ler ou escrever sabia. Priscila pediu a Andrônico, seu auxiliar, que lesse, comentando com todos um trecho da carta do amado irmão Paulo, da qual haviam feito uma cópia, trecho esse que dizia (Romanos 12.9 a 15 – NVI) :-"O amor deve ser sincero. Odeiem o que é mau; apeguem-se ao que é bom. Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a si próprios. Nunca lhes falte o zelo, sejam fervorosos no espírito, sirvam ao Senhor. Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração. Compartilhem com os santos em suas necessidades. Pratiquem a hospitalidade". Nesse momento Priscila interrompeu para que Urbano, que chegava naquele instante, nos contasse da prisão de alguns irmãos que se reuniam na casa de Estáquis. Todos choramos mas não se ouviu qualquer murmuração. Novamente a querida irmã e líder Priscila tomando novamente a palavra chamou-nos a atenção às palavras do Apóstolo que seguiam ao trecho lido:- "Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem e não os amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram; chorem com os que choram."

Todos caíram de joelhos louvando e engrandecendo o nome do Senhor. Ninguém pedia que a perseguição cessasse, mas que apesar dela tivessem forças para anunciarem corajosamente a Jesus, o Cristo, de casa em casa e de cidade em cidade. Pediam que a mão do Senhor fosse estendida para curar e realizar sinais e maravilhas por meio do nome do santo servo Jesus. Sentimos que éramos tomados e cheios pelo Espírito Santo, o chão parecia tremer sob nós, não conseguíamos permanecer em pé, um grande amor pelos não alcançados, como uma chama ardia em nossos corações.

Alguns dos que estavam presentes falaram estarem desejosos de se tornarem também cristãos naquele momento, pois criam de coração confessando a Jesus Cristo como o Senhor de suas vidas. O irmão Áquila alertou-os dos perigos e das perseguições que certamente enfrentariam. Disseram ter consciência do fato, mas, apesar disso, tinham a certeza de viverem uma esperança eterna.

Batalhariam no exército do Grande General Jesus Cristo salvando, conquistando as vidas das mãos do inimigo para o Senhor de suas vidas. Sob esse testemunho foram batizados em um tanque existente nos fundos da casa, após foram cheios do Espírito Santo com a imposição de mãos dos presentes. Foi então servida a ceia do Senhor, todos comendo de um mesmo pão e bebendo de um mesmo cálice relembraram a morte vicária do Senhor Jesus.

Alguns dos presentes haviam trazido alimentos que foram distribuídos aos necessitados. A seguir a irmã Priscila pediu ao irmão Andrônico para ajoelhado receber a unção para liderar uma nova igreja que passaria a se reunir no lar da irmã Júlia, na próxima semana, juntamente com uma parte dos irmãos presentes. O grupo crescera rapidamente, todos levavam às reuniões pessoas conhecidas e parentes (Oikós), e a casa já não comportava tantas pessoas. Embora houvesse uma grande comunhão naquele grupo todos estavam felizes pela bênção da multiplicação das igrejas caseiras em Roma. Novamente os irmãos levantaram suas vozes orando, adorando o nome do Senhor e abençoando a nova igreja.

Áquila deu-nos hospedagem naquela noite e só fomos dormir de madrugada, pois, juntamente com sua esposa, contou-nos as maravilhas operadas pelo Senhor não só em Roma, mas também em muitos outros lugares.

No dia seguinte fomos à reunião liderada pelo irmão Urbano na casa de Estáquis. As bênçãos do Senhor, a comunhão entre os irmãos, a adoração, o amor ao Senhor Jesus Cristo e a rendição de novas vidas ao Senhorio de Jesus também estavam presentes como na casa de Priscila e Áquila.

Em dias seguintes estivemos nas casas de Aristóbulo, de Herodião, de Narciso, de Trifena e Trifosa, de outros tantos, participando das igrejas que se reuniam em suas casas, sempre abençoadas embora perseguidas; sempre a mesma comunhão entre os irmãos embora odiados pelo império e pelo mundo. Nesta última reunião ficamos sabendo que dos cinco irmãos que foram presos, dois foram condenados à morte e degolados e três foram soltos para contarem aos demais cristãos as penas que os esperava se não parassem de anunciar que Jesus Cristo era o Senhor, pois para os romanos o senhor era o imperador (César). Os irmãos mesmo chorando, louvaram o nome do Senhor pelos que foram achados de ser dignos de morrer pelo nome do Senhor Jesus. Os que foram soltos reafirmaram sua fé. Também contaram que na prisão muitos outros presos e soldados se tornaram cristãos. Ficamos impressionados com a coragem e audácia daqueles irmãos.

Visitamos ainda a cidade de Éfeso e a região da Galácia. Em todos os lugares encontramos a mesma fé, o mesmo amor e a mesma comunhão. Também haviam pessoas que tentavam misturar costumes locais nas igrejas, que tentavam dividir as igrejas em grupos seguidores de judaizantes, de pretensos discípulos ou de falsas idéias. Esses logo eram repelidos através da leitura das cartas enviadas pelo apóstolo Paulo às igrejas caseiras. Estas cartas eram copiadas manualmente e distribuídas livre e graciosamente a fim de que fossem lidas nas reuniões nos lares.

Nesse ponto, o Espírito do Senhor nos trouxe de volta da viagem em pensamento. Voltamos à realidade da igreja contemporânea. Ficamos a tecer comparações da igreja moderna com a igreja iniciante nos aspectos abaixo:-

Nos dois primeiro séculos as igrejas eram pobres, nem propriedades simples possuíam. Os irmãos reuniam-se escondidos em pequenas e desconfortáveis casas, em grutas, em catacumbas, em florestas. Sem corais, bandas ou aparelhos sonoros. O seminário que os líderes cursavam era a prática e a comunhão do dia a dia, vivendo e falando das boas novas do evangelho na dependência total do Espírito Santo. Sem os obreiros "superpreparados", sem as "grandes estrelas (superstars)", sem os "donos-da-bola", mestres, doutores, "tele-evangelistas", etc., mas com grandes limitações de comunicação, transporte e sob grande perseguição levaram o evangelho a todo mundo conhecido.

Aquela igreja só parou quando satanás mudou a forma de combatê-la, usou o imperador Constantino. Este percebendo que todo o império seguiria a nova religião. Fazendo-se passar por cristão, deu início à decadência do cristianismo. Iniciou a construção de grandes edifícios e catedrais, locais onde os cristãos passaram a se reunir e congregar. Foram criados o clero com suas escolas de teologia e com a exclusividade de ler e interpretar a Palavra; a liturgia com sua pompa, também corais, cantores, instrumentistas, etc. Aos poucos foram sendo introduzidos os costumes e práticas greco-romanas, e a igreja foi cada vez mais se afastando do verdadeiro cristianismo.

Na verdade sempre houve grupos que permaneceram fiéis ao verdadeiro cristianismo:- montanistas, lolardos, valdenses, anabatistas e outros; agora perseguidos pelo império e pelo "cristianismo" oficial. Estes grupos continuaram se reunindo em grupos pequenos em cavernas, bosques, grutas; às escondidas, sendo perseguidos, massacrados, aniquilados; homens dos quais o mundo não era digno.

Vieram os movimentos de reforma, mas não foram completos. Se a verdadeira igreja neotestamentária tivesse sido restaurada, de há muito o mundo todo teria sido alcançado.

Não somos contrários ao bom uso das conquistas modernas como seminários, meios de comunicação, locais de reunião de massa, etc. Mas há a necessidade da igreja neotestamentária ser restaurada fielmente. Felizmente nas últimas décadas iniciou-se um novo movimento no meio evangélico mundial através de homens como Davi Young Cho (Evangelho Pleno – Coréia), Ralph Neighbour Jr.(Estados Unidos), Lawrence Khong (Batista Comunidade da Fé - Cingapura), Dion Robert (Costa do Marfim), César Castellanos (Bogotá) e outros pelo mundo, e no Brasil Roberto Lay (Menonita Curitiba), Valnice Milhomens (Palavra da Fé), Abe Hubber (Santarém/Recife) e de outros tantos pelo Brasil, e dos congressos da Sepal. Este movimento tem restaurado a visão e o modo de vida da igreja dos dois primeiros séculos. Os programas são trocados pela comunhão dos pequenos grupos; os especialistas pelos líderes facilitadores; as grandes campanhas pelo evangelismo individual. Cada casa se torna uma igreja e cada membro um discípulo e um ministro. Os cultos do domingo se tornam encontros de celebração onde os pequenos grupos se encontram no grande grupo para juntos e em comunhão celebrarem ao Senhor de nossas vidas. Essas igrejas têm se tornado ao mesmo tempo as maiores do mundo e também as menores. Os seus líderes os pastores presidentes no topo da estrutura, do organograma, nos pequenos grupos (células) são os menores pois ali são pastoreados.

A igreja dos pequenos grupos é aquela que sobrevive às mais terríveis perseguições. Caso passemos como igreja pelo período da pré-tribulação, ou aqueles que se converterem na grande tribulação, terão que se reunir às escondidas nos pequenos grupos. Mas isso será assunto de outra reflexão que o Senhor está nos dando.

Alguns versos que falam sobre a igreja nos lares:- Romanos 16: 5,10,11,14 e 15 – I Corint. 16.19 – Gál. 1.2 – Filip. 4.22 – Coloss. 4.15 – II Timot. 4.19 – Filemon 2 – Além do exemplo de Jesus que conviveu no seu ministério com um grupo com mais 12 discípulos, com os quais teve um relacionamento mais profundo.

Ivo Gomes do Prado

Candidato a servo inútil

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