terça-feira, 28 de janeiro de 2014

OS ANABATISTAS E OS REFORMADORES

Os reformadores suíços tinham conseguido destruir o testemunho dos valdenses, um testemunho do reino. No entanto, eles não puderam evitar que outros levantassem de novo a bandeira do reino. Uma das coisas boas que a Reforma trouxe foi estimular a impressão e a distribuição de Bíblias através de toda Europa. Vários acadêmicos da Reforma traduziram a Bíblia para a língua vernácula, e as imprensas tornaram estas traduções acessíveis ao cidadão comum.

Os europeus que liam a Bíblia por si mesmos, livres da influência agostiniana dos reformadores, com freqüência abraçavam o evangelho do reino. E foi assim que surgiu espontaneamente um novo movimento do reino em todo o norte de Europa.

Em Zurique, Suíça, este novo movimento do reino surgiu pela primeira vez durante o tempo em que Zuínglio se encontrava pregando. Alguns dos colegas de Zuínglio não se deixaram cegar pela influência de Agostinho, e viram claramente o evangelho do reino nos ensinos de Jesus. Eles desejavam restaurar o cristianismo apostólico, mas Zuínglio com sua Reforma não estava disposto a ir para além do que o concílio da cidade lhe permitisse. De maneira que estes cristões do reino começaram a se reunir à parte em casas particulares.

Além de querer restaurar os ensinos do reino de Jesus, estes novos cristões do reino também ensinavam a necessidade de uma igreja santa e disciplinada em lugar de uma Igreja estatal que incluía a todos os que viviam dentro do Estado. Também rejeitavam a predestinação. No entanto, Zuínglio demonstrou ser tão intolerante e tão mão de ferro como o seria Calvino posteriormente. Com a aprovação de Zuínglio, as autoridades civis rapidamente estabeleceram leis contra estes cristões do reino, a quem chamaram anabatistas, isto é, “rebatizadores”.* Uma destas leis estipulava o seguinte:

*Isso porque eles praticavam voluntariamente o batismo de crentes em vez de aceitarem o batismo de infantes imposto pelo Estado.

A fim de erradicar a perigosa, malvada, turbulenta e sediciosa seita dos anabatistas, decretamos o seguinte: Se a alguém for suspeito de ter sido rebatizado, deverá ser advertido pelos magistrados para que abandone o território sob pena do castigo designado. Toda pessoa está obrigada a denunciar os que favorecem o rebatismo. Quem não cumprir com esta ordem estará sujeito à punição conforme à sentença da magistratura.

Os professadores do rebatismo, os pregadores que batizam e os líderes das reuniões ilegais devem ser afogados. Os que tiverem sido previamente libertos de prisão e que juraram desistir de semelhantes coisas, incorrem no mesmo castigo. Os anabatistas estrangeiros devem ser expulsos; se voltarem, serão afogados. Ninguém está autorizado a se separar da Igreja [estatal] e se abster da Santa Ceia. Quem fugir de uma jurisdição para outra será desterrado ou extraditado conforme a exigência das autoridades.1

Zuínglio e seus magistrados civis rapidamente prenderam a qualquer professador ou líder anabatista que pudessem encontrar. Lançavam estes cristões em masmorras desoladoras e os alimentavam só com pão e água. Se estes cristões encarcerados se negassem a se retratarem de seus “erros”, atavam-lhes as mões por trás das costas e os afogavam no rio: um batismo de morte.2

Na Alemanha, Áustria e Holanda surgiram outros líderes e grupos de cristões do reino independentemente dos anabatistas da Suíça. Estes outros grupos do reino sem exceção descobriram o mesmo evangelho do reino, e cedo entram em contato uns com os outros. Os reformistas e os católicos chamavam a todos estes cristões do reino pelo nome de anabatistas.

Todos os reformadores principais achavam que o problema fundamental com Roma era sua teologia. Isto se devia ao fato de que todos estes reformistas achavam que a essência do cristianismo era a teologia. No entanto, os anabatistas acertadamente compreendiam que a essência do cristianismo é o relacionamento, e não a teologia. Primeiro temos que nascer de novo para podermos entrar no reino de Deus. E depois podemos crescer como um ramo na videira de Jesus. Sim, Roma apoiava muitas práticas e doutrinas antibíblicas, e cada uma delas devia ser corrigida. Porém, o simplesmente fazer correções teológicas não iria resolver o problema fundamental.

O problema principal era que o catolicismo romano havia se convertido basicamente numa religião mecânica. Tudo funcionava automaticamente. Se uma pessoa apoiasse o credo da Igreja, participasse dos sacramentos e morresse sendo fiel à Igreja (não envolvido em pecado mortal), então era salva. Se uma pessoa cometesse um pecado grave, essa pessoa podia expiá-lo mecanicamente só por cumprir a penitência indicada. Esta podia incluir dar esmolas, participar de uma peregrinação ou cruzada, pagar por uma indulgência ou contemplar as relíquias dos santos. Não se exigia uma mudança de coração. E, portanto, a relação da pessoa com Cristo nunca mudava.

Pois bem, quero deixar bem claro que a Igreja Católica Romana como tal não ensinava oficialmente que o cristianismo era somente uma questão de passar mecanicamente por uma lista de passos. A Igreja realmente ensinava que o amor a Deus e o arrependimento genuíno do pecado eram essenciais. O problema era (e ainda é) que havia um abismo considerável entre o que Roma dizia oficialmente e o que na realidade se praticava e se pregava na comunidade católica típica. Na prática, o catolicismo romano em sua essência havia se convertido numa religião mecânica que pregava uma graça barata.

Geralmente se pensa que a Reforma protestante mudou tudo isto. No entanto, a Reforma protestante só substituiu em grande parte uma forma de graça barata (os sacramentos, as indulgências, etc.) por outra forma de graça barata… a crença fácil: Apenas creia que Jesus morreu por teus pecados e que a tua própria obediência não tem nenhum papel na tua salvação e, pronto!, a tua vida eterna no céu está garantida. A verdade é que os luteranos alemães se diferenciavam pouco dos católicos alemães, exceto no que se referia à teologia e as formas de adoração. Tenho que admitir que as igrejas reformadas na Suíça realmente exigiam uma forma de vida cristã bem mais rígida, a qual faziam cumpri por meio das autoridades civis. Ainda assim estas igrejas ensinavam a pior forma de cristianismo mecânico. Isto é, que Deus arbitrariamente predestinava a todas as pessoas antes mesmo de nascerem.
O novo nascimento

Nem Lutero, nem Zuínglio, nem Calvino nem os católicos romanos punham muita ênfase no novo nascimento. Em seus sistemas, o novo nascimento era simplesmente parte de todo o processo mecânico. Mas para os anabatistas isto era muito diferente. Uma pessoa tinha que começar com o novo nascimento, incluindo um compromisso pessoal com o reino de Cristo. Não se tratava simplesmente de crer em Jesus como o seu Salvador pessoal. Ele também tinha que ser o seu Senhor. E isto não era simplesmente no plano teológico, mas sim algo que se manifestava na vida real da pessoa. Tal como expressou um anabatista:

Ora talvez alguns respondam: “Nossa crença é que Cristo é o Filho de Deus, que sua Palavra é verdade e que ele nos comprou com seu sangue e com sua verdade. Fomos regenerados no batismo e recebemos o Espírito Santo; portanto, somos a verdadeira igreja e congregação de Cristo”. Aos tais respondemos: “Se sua fé é como vocês dizem, por que não fazem o que ele lhes mandou em sua palavra?” Seu mandamento é: “Arrependam-se e guardem os mandamentos”. (…) Fiel leitor, pense que se isto aconteceu com você tal como afirma, (…) você teria que reconhecer, também, que o nascimento antes mencionado e o Espírito recebido estão totalmente sem efeito, sem sabedoria, nem poder e nem fruto em você; sim, são vões e mortos. Que você não vive nem pelo Espírito nem no poder do novo nascimento.3

O mesmo escritor descreveu o tipo de fé que o evangelho do reino exige: “A verdadeira fé evangélica não pode ficar inativa. Ela veste ao nu. Dá de comer ao faminto. Consola o aflito. Protege o desabrigado. Serve os que lhe fazem mal. Ata o que está ferido. Faz-se tudo para todos.”4 Como também expressou outro líder anabatista: “Nenhum homem pode conhecer verdadeiramente a Cristo se não segui-lo em vida”.5

Como diz Paulo: “Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1 Coríntios 4:20). A essência do reino não está em palavras (a teologia), mas sim em poder. E nessa passagem Paulo não estava se referindo ao poder para fazer milagres. Os milagres são como as palavras. Eles podem ser parte do reino, mas não são a essência do reino. Eles não são nada sozinhos. Jesus sabia que nossa inclinação seria a de seguir os milagres; por isso, advertiu-nos de antemão: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mateus 7:22–23).

Se Jesus nunca conheceu a estes fazedores de milagres, isso significa que eles nunca nem sequer estiveram em sua videira. Eles viveram toda sua vida cristã num mundo de fantasia, profetizando e expulsando demônios no nome de Jesus. Eles achavam que tinham poder, mas qualquer que fosse o poder que tivessem não vinha da parte dele. Qual era o problema dele? Era que confiavam em suas próprias obras? Não, Jesus disse que o problema era que eles eram “praticantes de iniqüidade”. Seu reino tem leis, e se não obedecermos a suas leis, somos praticantes da iniqüidade.

Este é o ponto principal que os anabatistas queriam deixar claro a seus ouvintes. Não importa quanta teologia você tenha compreendido corretamente. E não importa os passos formais que tenha dado para nascer de novo. Se você não estiver vivendo sob o poder do Espírito Santo, tudo é inútil. Você nunca esteve na videira de Jesus, ou então foi cortado dela. Alguém que está crescendo na videira de Jesus não é praticante de iniqüidade. Ele não vive em desobediência às leis de Cristo.
O povo do reino

Um escritor anabatista deixou a seguinte descrição dos anabatistas de seu tempo:

No batismo eles sepultam seus pecados na morte do Senhor e ressuscitam com ele a uma nova vida. Eles circuncidam seus corações com a Palavra do Senhor; eles são batizados com o Espírito Santo para entrar no corpo santo e sem mancha de Cristo, como membros obedientes de sua igreja, conforme a verdadeira ordem e a Palavra do Senhor. Eles se vestem de Cristo e manifestam seu espírito, natureza e poder em todo o seu comportamento. Eles temem a Deus com o coração. Em seus pensamentos, palavras, e obras não procuram outra coisa a não ser o louvor de Deus e a salvação de seus amados irmões. Não conhecem o ódio nem a vingança, pois amam a quem os odeiam. Eles fazem bem a quem os maltratam e oram pelos que os perseguem.6

Estas pessoas regeneradas possuem um rei espiritual acima deles que os governa por meio do cetro intato de sua boca, ou seja, com seu Espírito Santo e sua Palavra. Ele os veste com o manto de justiça, de pura seda branca. Ele os refresca com a água viva de seu Espírito Santo e os alimenta com o pão da vida. Seu nome é Jesus Cristo. Eles são os filhos da paz que converteram suas espadas em enxadões e suas lanças em foices, e não aprenderão mais a guerra. Eles dão a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.7

Estes novos cristões do reino rapidamente encontraram uns aos outros e fundaram congregações locais e alianças em todo o continente. O movimento anabatista propagou-se tão rapidamente que parecia que se converteria num movimento mais amplo que o da corrente principal da Reforma protestante.8 Os anabatistas não tinham um sistema de missões organizado. Em vez disso, tal como os primeiros cristãos , todos os anabatistas eram missionários que compartilhavam o evangelho do reino com todas as pessoas que lhes fosse possível. Uma vez mais, o evangelho do reino estava alvoroçando o mundo!

Mas a reação do mundo foi muito rápida. O mundo não tinha nenhum desejo de ser transtornado. Os reformistas temiam que se muitas pessoas se unissem a este novo movimento do reino, eles não teriam tropas suficientes para lutarem contra os católicos ou os turcos. Tanto os reformistas como os católicos desejavam uma sociedade estabelecida dentro dos limites do híbrido constantiniano. Eles haviam chegado ao ponto de crer que se a Igreja e o estado não estivessem unidos, toda a sociedade desapareceria. Portanto, os anabatistas tinham que morrer!

Tanto as Igrejas Católicas Romanas como as da Reforma protestante submeteram estes novos cristões do reino às mesmas torturas desumanas que os romanos pagões uma vez tinham imposto aos cristões de seu tempo (exceto a de lançá-los aos leões). Por exemplo, as autoridades alemãs executaram a seguinte sentença contra o líder anabatista Miguel Sattler:

Decretou-se a sentença de que Miguel Sattler seja entregue ao carrasco, o qual o conduzirá ao lugar da execução e lhe cortará sua língua. Depois, devem atá-lo a uma carroça e arrancar pedaços da carne de seu corpo duas vezes com tenazes de aço em brasa viva. Após tirá-lo do portão [da cidade], eles devem dilacerar o seu corpo mais cinco vezes da mesma maneira. Depois disto, deverão queimá-lo até convertê-lo em cinzas.9

E que crimes tão graves tinha cometido Miguel Sattler para merecer castigo tão cruel? Simplesmente que tinha ensinado a outras pessoas o cristianismo do reino. Dois dos nove artigos da acusação contra ele diziam que ele era contra os juramentos e que pregava a não-resistência. Pergunto-me se aquelas mesmas autoridades cristãs teriam rasgado em pedaços a Cristo com tenazes em brasa e depois o teriam queimado vivo. Afinal de contas, Jesus também pregou a não-resistência e lhe ensinou a seus discípulos a não prestar juramentos.

A perseguição contra os anabatistas foi realmente pior do que a que tinham enfrentado os cristões da igreja primitiva por parte de Roma. Pois foi bem mais minuciosa e persistente. No entanto, mesmo com esta perseguição intensa, os reformistas e os católicos não puderam destruir completamente este novo movimento do reino. Ainda há um remanescente fiel deles entre nós. Ao mesmo tempo, os anabatistas tiveram suas falhas. Por exemplo, em conseqüência da perseguição horrenda nas mões de outros supostos cristões, a maioria deles com o tempo perdeu seu zelo de testemunhar para os outros.
Outros cristões do reino

O movimento anabatista foi um dos movimentos mais importantes da história do cristianismo. Os anabatistas não só restauraram o evangelho do reino no século XVI, mas também um remanescente deles têm mantido a bandeira hasteada há quase quinhentos anos.

No entanto, os anabatistas não foram de maneira nenhuma os únicos cristões do reino durante os últimos quinhentos anos. Embora as Igrejas reformadas chamassem comumente o cristianismo do reino como “legalismo”, cristões individuais do reino surgiram no seio das Igrejas reformadas. Também não faltaram cristões na Igreja Católica Romana. O problema simplesmente é que é bem mais difícil praticar o cristianismo do reino dentro de uma igreja católica ou reformada. Na realidade, nenhum movimento do reino duradouro surgiu jamais de nenhuma Igreja que estivesse relacionada à teologia da Reforma.
Os quacres

Apesar de alguns anabatistas terem chegado à Inglaterra, nunca puderam estabelecer um assentamento permanente lá. No entanto, em 1647, um movimento do reino, original da Inglaterra, surgiu independentemente dos anabatistas. Típico da maioria dos movimentos do reino, este novo

movimento foi iniciado pelo inculto filho de um tecelão. O filho chamava-se Jorge Fox. A partir da leitura da Bíblia por conta própria, sem nenhuma preparação teológica, ele descobriu o evangelho do reino.

Com entusiasmo e gozo, Fox começou a pregar fervorosamente o cristianismo do reino por toda Inglaterra. Ele era tão valente e ousado em sua pregação que às vezes interrompia o sermão na Igreja estatal e começava a pregar para a congregação. Numa ocasião, após fazer isto, uma multidão irritada de fiéis o linchou. Depois de Fox sobreviver à tentativa de enforcamento, eles o espancaram até deixá-lo inconsciente. Quando finalmente recobrou seus sentidos, pôs-se de pé, olhou para a multidão e disse em voz alta: “Batam-me novamente se quiserem. Aqui estão meus braços, minha cabeça e minha face.” Desconcertada, a multidão se dispersou.10

Jorge Fox fez muitos discípulos por meio de sua pregação, e eles se chamavam a si mesmos de Sociedade de Amigos. Outros os chamavam de quacres, nome pelo qual são mais conhecidos. Em toda a Inglaterra, e depois nas Américas, os quacres pregavam os valores do reino por onde fossem. Apesar de as autoridades da Igreja terem açoitado e aprisionado os quacres, nada pôde silenciá-los. No Novo Mundo, os puritanos proibiram os quacres, sob pena de morte, de se fixarem em Massachussets. Todavia, os quacres continuaram testemunhando em Massachussets, e os puritanos enforcaram a alguns deles.

Ao contrário dos anabatistas e os valdenses, os quacres punham ênfase no testemunho interior do Espírito Santo acima dos ensinos da Escritura. Por acreditarem que haviam entrado numa nova era do Espírito, eles ensinavam erroneamente que o batismo e a Ceia do Senhor já não eram necessários.11 Através dos séculos, a sua ênfase na “Luz Interior” do Espírito os conduziu a um ativismo social cada vez maior e a uma menor dependência das Escrituras. Na atualidade, os quacres são um corpo extremamente liberal que se concentram sobretudo no ativismo social. Hoje apenas um pequeno remanescente quacre apóia o evangelho bíblico do reino.
Os “irmões”

Enquanto o movimento quacre florescia em Inglaterra, um novo movimento espiritual (o pietismo) difundia-se fortemente através da Alemanha e do norte de Europa. Almejando uma vida espiritual autêntica, os cristões que pertenciam às Igrejas do Estado começaram a se reunir em pequenos grupos para estudarem a Bíblia e orarem. Tal como os quacres, os pietistas punham um grande importância na obra interior do Espírito Santo. E, igual aos quacres, os pietistas em geral consideravam o batismo e a Santa Ceia como não essenciais, isto é, aspectos sem importância da vida cristã. Infelizmente, ao contrário dos quacres, a maioria dos pietistas não ensinavam uma obediência literal aos ensinos do reino de Jesus.

No área palatina da Alemanha, no começo do século XVIII, um jovem cristão chamado Alexander Mack se despertara espiritualmente pelo movimento pietista. Agora, a maioria dos pietistas permaneciam nas Igrejas estatais (luteranas, reformadas ou católicas) e celebravam seus cultos de oração em horários que não interferiam nos serviços das Igrejas estatais. No entanto, Mack e seus colegas espirituais viram a necessidade de se separarem das Igrejas estatais e regressar ao cristianismo primitivo. A partir da leitura da Bíblia, Mack e seus colegas passaram a ver o claro evangelho do reino. Eles recusaram os juramentos, a guerra, a acumulação de riquezas, as ações judiciais e outras coisas semelhantes que contradiziam com os ensinos de Cristo.12

Estes novos cristões do reino se chamaram a si mesmos simplesmente pelo nome de “irmões”, mas passaram a ser conhecidos como batistas alemães ou dunkards. Eles difundiram o evangelho do reino de maneira entusiasta no meio de todos os povoados onde viviam. A perseguição por parte das autoridades os obrigava a mudar-se de um povoado a outro. Com o tempo, mudaram-se para Germantown, Pensilvânia (EUA). Em sua Autobiography (“Autobiografia”), Benjamin Franklin descreve seu encontro com os dunkards:

Acho que [há] uma conduta mais prudente em outra seita entre nós, a dos dunkards. Conheci um de seus fundadores, Michael Welfare, não muito depois que esta apareceu. Ele se queixou comigo de que estavam sendo caluniados odiosamente pelos fanáticos de outras crenças e que lhes acusavam de princípios e práticas abomináveis com as quais eles não tinham nada a ver. Eu lhe disse que isso sempre acontecia com as novas seitas e que, para deter semelhante abuso, cria eu que seria bom publicar os artigos de sua crença e as regras de sua prática. Ele me disse que isto tinha sido proposto entre eles, mas que não fora aprovado pela seguinte razão:

“Quando inicialmente nos unimos na sociedade,” diz ele, “aprouve a Deus iluminar nossas mentes a ponto de nos fazer ver que algumas coisas que considerávamos verdades, eram erros; e outras que considerávamos erros, eram verdades autênticas. De tempos em tempos, ele se comprazeu em permitir-nos nova luz, e nossos princípios vêm melhorando ao mesmo tempo que nossos erros vêm diminuindo. Agora, não estamos seguros de ter chegado ao final desta progressão e à perfeição do conhecimento espiritual ou teológico. Tememos que se imprimirmos nossa confissão de fé, nos sentiremos atados e confinados a ela, e talvez não estejamos dispostos a receber um maior melhoramento. E nossos sucessores, ainda mais, imaginarão que o que nós seus anciões e fundadores fizemos é algo sagrado e que do qual nunca devem se apartar.

Esta modéstia numa seita é talvez um exemplo único na história da raça humana; pois todas as outras seitas crêem estar na posse de toda a verdade.13

Na realidade, a postura não-dogmática dos dunkards com relação à teologia (no que vai além do fundamental) é muito característica dos novos movimentos do reino. Quando os crentes descobrem o reino pela primeira vez, seu gozo por este tesouro escondido é tão grande que eles se concentram fundamentalmente no reino e em seu Rei. Eles não se preocupam muito com os detalhes minuciosos da teologia.
A “igreja cristã apostólica”

Na Suíça do século XVIII, depois que os anabatistas por pouco desapareceram do país, Samuel Fröhlich, um jovem estudante de seminário, organizou irmandades cristãs baseadas em grande parte numa interpretação literal da Palavra de Deus. Não por acaso, isto o conduziu aos já conhecidos fundamentos do evangelho do reino: a não-resistência, a teologia simples, um reconhecimento do papel que desempenha a obediência na salvação e a rejeição aos juramentos e o materialismo. Tal como todos os outros novos cristões do reino, Fröhlich e seus irmões crentes testemunhavam com entusiasmo, e seu movimento do reino se propagou rapidamente por toda a Europa. Estes cristões do reino estão conosco ainda na atualidade, sendo conhecidos na Europa como nazarenos e no continente americano como a “Igreja Cristã Apostólica”.
Brotos do reino

A maioria das pessoas que lêem as Escrituras sem a influência de doutrinamentos anteriores geralmente chegam a um conhecimento do evangelho do reino. Portanto, não é de se estranhar quando descobrimos que novas igrejas em casas e irmandades pequenas com freqüência ensinam o evangelho do reino. Na realidade, algumas das igrejas convencionais fundadas que conhecemos na atualidade abraçavam a doutrina da não-resistência e pregavam um evangelho mais próximo ao evangelho do reino em sua infância. Alguns exemplos seriam a Igreja de Cristo, a Igreja Cristã, os morávios, algumas das igrejas pentecostais e algumas das igrejas do Holiness wesleyanas. No entanto, à medida que esses movimentos cresceram, começaram a fundar seminários, adquiriram respeitabilidade, e em geral perderam a maioria dos ensinamento do reino.

Antes de parar com nossa discussão a respeito dos vários movimentos do reino ao longo da história, desejo deixar bem claro que estes grupos do reino não apoiaram exatamente as mesmas crenças teológicas. Todos eles (com a exceção dos quacres, cujo ensino sobre o batismo era muito fraco) apoiaram o Credo Apostólico e o evangelho do reino, incluindo os ensinos de Jesus Cristo sobre o estilo de vida. É isso que é importante para Jesus.

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