quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SOMENTE PARA OS QUE PASSARAM DO SESSENTA: JÁ NÃO TENHO TEMPO.

JÁ NÃO TENHO TEMPO


"Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora
Tenho muito mais passado do que futuro
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas
As primeiras, ele chupou displicentemente
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram
Cobiçando seus lugares, talento e sorte
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos
Quero a essência... Minha alma tem pressa
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana, muito humana
Que não foge de sua mortalidade
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade."


__ Ricardo Gondim - Pastor Igreja Betesda em São Paulo

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Jack Cottrell - Predestinação e Pré-conhecimento: Comentário sobre Romanos 8.29

Jack Cottrell - Predestinação e Pré-conhecimento: Comentário sobre Romanos 8.29

8.29 Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Aqui Paulo conta mais detalhes sobre o propósito de Deus. Ele afirma exatamente o que é este propósito (v. 29b), e resume os meios pelos quais Deus irá realizá-lo: através do ato do pré-conhecimento e do decreto da predestinação. A relação entre este ato e este decreto podem muito bem ser a mais controversa e importante questão exegética do livro de Romanos.[1]
A palavra “predestinou” combina horizo, “determinar” (veja 1.4), e pro, “antes,” resultando em proorizo. Ela significa “determinar de antemão, predeterminar, preordenar.” A tradução “predestinar” sugere a nuance “predeterminar o destino de.” Quando usado a respeito de pessoas com referência à salvação, ela está intimamente relacionada com o conceito de eleição (v. 33). O prefixo pro indica que a determinação em vista aconteceu antes que o mundo foi criado (veja Ef 1.4; Ap 17.8).
Neste versículo a predeterminação do destino de um indivíduo é o ponto. Deus predeterminou que aqueles que ele pré-conheceu seriam um dia “conformes à imagem de seu Filho.” Isto é frequentemente tomado como fazendo referência a nossa recriação espiritual à imagem moral de Deus conforme perfeitamente incorporado em Jesus Cristo. Como tal, ela incluiria nossa presente e contínua santificação.[2] Mas este não é o ponto. Neste contexto a ênfase está em nossa herança final, a glória escatológica do corpo redimido (vv. 11, 23). “A imagem de seu Filho” faz referência ao fato de que nossos corpos na ressurreição serão como o de Cristo. O pensamento e linguagem é o mesmo de Fp 3.21, que diz (literalmente) que nosso corpo será “conforme ao corpo da sua glória.” Veja também 1Co 15.49; 2Co 3.18.[3]
Esta interpretação é confirmada pela referência a Cristo como “o primogênito entre muitos irmãos.” Em Cl 1.15 “primogênito” significa a preeminência exclusiva de Cristo, mas o ponto aqui é que ele é “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1.18; veja Ap 1.5), isto é, o primeiro a ser ressuscitado dos mortos em um corpo glorificado. (Veja At 13.34; 26.23; Rm 6.9; 1Co 15.20.) Como tal, ele é o primeiro “entre muitos irmãos,” isto é, entre muitos outros que também serão ressuscitados em corpos glorificados para constituirem a família eterna de Deus. Isto será, como diz Dunn, “uma nova raça do povo escatológico em quem o desígnio de Deus desde o início da criação é finalmente cumprido” (I:484).
Isto é o que foi predestinado: nossa salvação final, nossa conformidade ao corpo da ressurreição de Jesus, nossa herança de glória. Em outras palavas, até mesmo antes do mundo ter sido criado, Deus já tinha predestinado que alguns indivíduos iriam para o céu, e que o restante iria para o inferno. É importante ver que tal predestinação se aplica a indivíduos específicos e não apenas a um plano ou um grupo impessoal. (Veja Gru, 338-43.) Até aqui podemos concordar com o Calvinismo.
Mas então vem a questão crucial: em que base Deus assim nos predestina? Aqui é onde os não-calvinistas se separam dos calvinistas e outros agostinianos. Para os últimos, a predestinação divina de certos indivíduos para a salvação é uma eleição incondicional. Antes da criação, eles dizem, em um decreto eficaz e todo-abrangente, Deus projetou em detalhes tudo que ocorreria dentro do universo criado. Ele decidiu que criaria X número de seres humanos, e unilateral e incondicionalmente determinou que alguns destes seriam eventualmente participantes de sua família celestial, e que o restante não.
A palavra chave aqui é incondicionalmente. Isto é, para os calvinistas, quando Deus estava predeterminando quais indivíduos iriam para o céu, Sua decisão não foi contingente a se ou não estes indivíduos satisfariam certas condições, tais como fé e arrependimento. Deus nunca responde às contingências humanas; isto seria contrário a sua soberania (veja Gru, 217-18). Isto não significa que ele salvará qualquer um à parte da fé e do arrependimento. Significa, antes, que quando Deus predestinou alguns para a salvação, ele não apenas determinou seu destino celestial, mas também determinou que ele soberanamente iria conferir a eles a fé e o arrependimento, que são pré-requisitos para o céu. Ele predestinou não apenas o fim, mas também os meios.
Isto é onde o Calvinismo se equivoca. É bíblico dizer que Deus predestina o resultado final da salvação, o céu; mas é contrário à Escritura dizer que estes indivíduos irão satisfazer as condições para irem para o céu somente porque Deus os predestinou a isso. Deus predestina o fim, mas não os meios. Ele predestina todos os crentes ao céu, mas ele não predestina alguém para tornar-se crente. A salvação é condicional (veja 1.16), e os indivíduos devem satisfazer estas condições por uma escolha de seu próprio livre-arbítrio. Portanto, a própria predestinação é condicional; Deus predestinou ao céu aqueles que ele preconheceu que satisfariam as condições exigidas. (Veja Gru, 343-5.)
Aqui chegamos ao ponto crucial neste versículo, isto é, a relação entre o pré-conhecimento e a predestinação. “Os que dantes conheceu, também os predestinou.” Devemos notar que o v. 29 diz apenas que Deus pré-conheceu certas pessoas; ele não diz especificamente o que ele pré-conheceu sobre elas. Em vista do ensino bíblico sobre a salvação em geral, muitos supõem que Deus pré-conheceu “que eles iriam cumprir as condições da justificação” (Lard, 282). Como Godet coloca (325), eles são “pré-conhecidos como certos de cumprirem a condição da salvação, a saber, a ; assim: pré-conheceu como seus pela fé.”
Esta resposta não é de forma nenhuma desarrazoada, mas eu sugiro que o v. 28 já revelou o objeto do pré-conhecimento de Deus. Não devemos negligenciar a conexão entre estes dois versículos, como se o v. 29 existisse à parte de qualquer contexto. O versículo 29 começa (após a conjunção) com o pronome relativo “quem” (traduzido “aos” na NVI). Como regra geral esperaríamos um antecedente para este pronome, e aqui o encontramos no v. 28, a saber, “aqueles que amam a Deus.” Deus pré-conheceu aqueles que o amariam, isto é, ele pré-conheceu que em algum momento de suas vidas eles viriam a amá-lo e continuariam a ama-lo até o fim. Veja o paralelo em 1Co 8.3, “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (ACF). Esta é exatamente a mesma ideia de Rm 8.29a, embora ele faça referência ao conhecimento contínuo de Deus antes que a seu pré-conhecimento como tal.
Devemos também observar que o v. 29 começa com a conjunção causativa hoti, “pois, porque.” Mais provavelmente ela combina com “sabemos” no v. 28. Assim, o pensamento é bem simples: Sabemos que Deus opera todas as coisas para o bem daqueles que o amam e são chamados para a sua família eterna de acordo com o seu propósito. Como sabemos disto? Porque, tendo pré-conhecido desde a eternidade que eles o amariam, ele já os predestinou a este estado de glória eterna! Dessa forma, podemos estar certos de que as provações temporárias desta vida não são capazes de invalidar o que o Deus Todo-Poderoso já predestinou que irá ocorrer! Antes, ele as usa de forma a nos preparar para desfrutar a eternidade ainda mais.
Os calvinistas obviamente rejeitam esta explicação simples. Em disputa, eles dizem, está o significado da palavra “pré-conhecer” (proginosko). Visto que ginosko significa “conhecer,” e pro significa “antes,” parece óbvio que proginosko significa “conhecer de antemão” no sentido de consciência cognitiva ou mental anterior. Deus certamente tem tal conhecimento prévio. Por causa de sua relação única com o tempo, seu conhecimento não está limitado ao agora; ele conhece o passado e o futuro assim como o presente (GC, 255-9, 279-89). O verbo “pré-conhecer” é usado aqui e em quatro outras passagens no NT: At 26.5; Rm 11.2; 1Pe 1.20; 2Pe 3.17. (O substantivo é usado duas vezes: At 2.23; 1Pe 1.2.) Todos concordam que em At 26.5 e 2Pe 3.17, onde faz referência ao conhecimento humano, ele tem este significado simples de conhecimento prévio ou presciência.
Mas os calvinistas argumentam que em todas as outras passagens nas quais Deus é o sujeito, tanto o verbo quanto o substantivo têm outra conotação, a saber, amor distintivo.[4] Incluídos aqui estão dois conceitos: amar e escolher. Visto que a própria palavra “conhecer” é algumas vezes “quase sinônimo de ‘amar,’ considerar com afeto, conhecer com interesse peculiar, deleite, afeição e atitudes,” pré-conhecimento em 8.29 deve significar “aqueles que ele conheceu desde a eternidade com deleite e afeição distinguidores,” ou “quem ele pré-amou” (Murray, Romanos, 345).[5]
A palavra chave, contudo, é “distintivo.” Para os calvinistas, o pré-conhecimento de 8.29 é um ato pelo qual Deus (incondicionalmente) escolhe algumas pessoas da massa da humanidade futura para serem os únicos receptores de sua graça salvadora. Isto é, o “pré-conhecimento” é o mesmo que “eleição.”[6] Como Moo resume, “A diferença entre ‘conhecer ou amar de antemão’ e ‘escolher de antemão’ deixa virtualmente de existir” (I:569). Para 8.29, Arndt e Gingrich dão a definição de “escolher de antemão.” Newman e Nida traduzem “Aqueles que Deus já escolheu.” Tem a “conotação de graça eletiva,” diz Bruce (177).[7]
Sobre o que os calvinistas baseiam esta definição peculiar de pré-conhecimento? Eles a baseiam principalmente sobre alguns usos bíblicos selecionados dos verbos “conhecer,” nos quais eles encontram as conotações de “escolher” e/ou “amar.” Estes incluem as passagens onde “conhecer” é um eufemismo para a relação sexual, e eles incluem alguns outros usos do NT de yada (hebraico para “conhecer), geralmente Gn 18.19; Êx 2.25; Jr 1.5; Os 13.5; e Am 3.2. Estes textos do NT também são citados: Mt 7.23; Jo 10.14; 1Co 8.3; 13.12; Gl 4.9; e 2Tm 2.19. Visto que “conhecer” em todas estas passagens supostamente significa muito mais do que simples cognição, podemos concluir que “pré-conhecer” em 8.29 e em outras passagens significa muito mais, a saber, “o amor distintivo conferido de antemão.” Dessa forma, “aqueles que ele escolheu de antemão, ele também predestinou.”
Como podemos responder a isto? Fazendo um estudo exaustivo da forma que a Bíblia usa as palavras “conhecer” e “pré-conhecer.” Tal projeto está fora do escopo deste comentário, mas podemos oferecer uma análise concisa.
Em primeiro lugar, as conotações não-cognitivas de ginosko são virtualmente inexistentes no grego secular. Moo admite que a definição calvinista de pré-conhecimento soa “um tanto estranha contra a experiência do uso grego amplo” (I:569).
Em segundo lugar, o uso de “conhecer” como um eufemismo para as relações sexuais não contribui em nada para a visão calvinista, visto que ele se refere especificamente ao ato sexual e não a algum amor que possa estar associado a ele. Ademais, o ato de “conhecimento” sexual não inclui de forma alguma a conotação de escolher, mas mais propriamente pressupõe que uma escolha distintiva já foi feita (pelo casamento). Finalmente, o uso de “conhecer” para este ato está muito mais próximo de cognição do que de amar ou escolher; ele implica um conhecimento cognitivo do mais íntimo grau.
Em terceiro lugar, os textos bíblicos onde “conhecer” e “pré-conhecer” parecem ter uma conotação de amor ou afeição (p.ex., Êx 2.25; Os 13.5) não provam nada, pois eles geralmente não especificam a razão para o conhecimento-amor de Deus, e certamente não sugerem que foi incondicional. De fato, 1Co 8.3 parece dizer que é condicional: “Se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.”
Em quarto lugar, uma análise dos textos do NT onde as palavras “conhecer” têm pessoas como objetos, isto é, onde a ação de conhecer é especificamente direcionada a pessoas e não a fatos como tais, mostra que em tais casos estas palavras nunca têm a conotação de “escolher” ou “impor uma distinção.” Isto se aplica a ginosko(usado cerca de 52 vezes desta forma), epiginosko (cerca de 15 vezes), e oida (cerca de 43 vezes).
Essa análise fornece muitos insights úteis ao significado do pré-conhecimento de Deus. Em ordem de especificidade crescente, as três conotações básicas de “conhecer uma pessoa” são como segue.
(1) Identificação. Neste caso, “conhecer” significa reconhecer alguém, conhecer quem ele é, saber sua identidade ou sua verdadeira identidade, ser capaz de identificá-lo por quem ele é, conhecer ou estar familiarizado com ele, entendê-lo, conhecer sua verdadeira natureza. Esta é de longe a mais comum conotação.[8] É um ato puramente cognitivo. Não impõe uma identidade sobre alguém, mas percebe essa identidade. Isto inclui a ideia de reconhecer alguém como pertencendo a um grupo particular, em distinção àqueles que não pertencem. Este é o sentido em que Jesus “conhece” suas ovelhas (Jo 10.14, 27), inclusive como as suas ovelhas o conhecem (Jo 10.14; veja 2Tm 2.19). Esta é a conotação de “conhecer” que se aplica a “pré-conhecer” em 8.29.
(2) Reconhecimento. Aqui “conhecer” significa não apenas ter um conhecimento cognitivo da identidade de alguém, mas também admitir ou reconhecer essa identidade. Como tal é um ato da vontade, embora pressuponha um ato de cognição. A coisa mais importante é que este reconhecimento não impõe uma identidade particular sobre alguém, mas simplesmente a confessa.[9]
(3) Experiência. A terceira e mais intensa conotação de “conhecer” quando uma pessoa ou pessoas são seu objeto é conhecer experimentalmente, experimentar uma relação com alguém. Novamente, pressupõe cognição, mas vai além disso. Mais significativamente, tal conhecimento não é um ato que inicia uma relação, mas simplesmente a experimenta. Esta conotação é encontrada especialmente em 1 João.[10] Mt 7.23; 1Co 8.3 e Hb 8.11 poderiam ser (1) ou (3).
Em cada caso o ato de conhecer não cria a identidade de uma pessoa ou sua distinção de outras pessoas. Antes, ele pressupõe uma identidade ou distinção já existente; o ato de conhecer percebe e em alguns casos reconhece essa identidade ou distinção. Estas conotações para conhecer se ajustam ao termo “pré-conhecimento” muito bem como ele é usado em 8.29 e em outras passagens. Aqueles que Deus desde o princípio identificou e reconheceu como seus, ele predestinou para serem membros de sua glorificada família no céu. (A conotação de experimentar uma relação não reproduz bem o conceito de pré-conhecimento, visto que o pré-conhecimento como tal precede a existência de seu objeto, impossibilitando uma relação experimentada.)
Em todo caso, uma análise de todos os usos de “conhecer” com pessoas como objeto mina a noção que significa “escolher,” e dessa forma não apoia a ideia calvinista que o pré-conhecimento é o mesmo que eleição ou escolher de antemão.
Em quinto lugar, os outros quatro usos do NT de “pré-conhecer” e os dois usos de “pré-conhecimento” não carregam confortavelmente as conotações de “pré-amar” e “escolher de antemão.” At 26.5 e 2Pe 3.17 não fazem referência ao pré-conhecimento de Deus, mas claramente se referem ao conhecimento prévio. Rm 11.2 se refere ao pré-conhecimento de Deus de Israel como nação e não a qualquer indivíduo dentro dele. O contexto sugere que Paulo está se referindo ao conhecimento prévio de Deus da rebelião e idolatria de Israel. A despeito do fato que ele pré-conheceu todos eles (veja 9.22, 27-29; 10.16-21), nunca foi seu plano rejeitar seu povo completamente.
Em 1Pe 1.20 Cristo é aquele pré-conhecido desde a fundação do mundo; e no contexto, conhecimento prévio, não escolha, é o significado preferido. O contraste é entre o oculto e o revelado. Ainda que o Pai conhecia desde a fundação do mundo que Cristo o Filho seria nosso Redentor, ele não revelou até os últimos dias.
Os dois usos do substantivo “pré-conhecimento” são igualmente consistentes com o entendimento não-calvinista de “pré-conhecer” em 8.29. 1Pe 1.1-2 diz que os escolhidos (são escolhidos) de acordo com o pré-conhecimento de Deus Pai. Dessa forma, uma clara distinção é feita entre pré-conhecimento e escolha, e não há nenhuma razão para ver no pré-conhecimento alguma coisa diferente de seu significado básico de conhecimento prévio. Assim, a relação entre o pré-conhecimento e a eleição aqui é exatamente o mesmo que aquele entre pré-conhecimento e predestinação em 8.29.
At 2.23 se refere ao pré-conhecimento de Deus Pai; seu objeto é Jesus Cristo e as circunstâncias de sua morte. Jesus foi entregue “pelo determinado conselho e presciência.” “Determinado conselho” é equivalente a predestinação; a NASB traduz “plano predeterminado.” Isto é, Deus já tinha determinado desde a eternidade que Cristo morreria por nossos pecados. Que ele foi entregue “de acordo com o pré-conhecimento” significa que Deus pré-conheceu todos os atos humanos de participação na traição e morte de Cristo, tais como o de Judas e Herodes. Deus não predeterminou estes atos, mas ele os conheceu de antemão e portanto podia realizar seu plano em conjunção com eles e através deles.
Algumas vezes os exegetas calvinistas tentam igualar pré-conhecimento a plano predeterminado em At 2.23, apelando para uma regra da gramática grega. MacArthur assim (I:496) argumenta:
De acordo com o que estudiosos do grego referem como a regra de Granville Sharp, se dois substantivos do mesmo caso (neste exemplo, “plano” e “presciência”) são conectados por kai (“e”) e têm o artigo definido (o) antes do primeiro substantivo mas não antes do segundo, os substantivos se referem à mesma coisa.... Em outras palavras, Pedro iguala o plano predeterminado de Deus, ou a preordenação, à sua presciência.
Wuest (143-4) coloca quase exatamente da mesma forma, que em tal caso o segundo substantivo “se refere à mesma coisa” que a primeira; portanto At 2.23 mostra que a predestinação e o pré-conhecimento “se referem à mesma coisa.”
Este argumento, entretanto, é seriamente falho. Ambos, MacArthur e Wuest, citam equivocadamente a regra de Sharp. A regra não diz que os dois substantivos na construção descrita acima “se referem à mesma coisa.” Ela diz somente que em tal caso o segundo substantivo “sempre está relacionado à mesma pessoa que é expressa ou descrita no primeiro substantivo.” Há uma enorme diferença entre estar relacionado com a mesma pessoa (ou coisa) e se referir à mesma pessoa (ou coisa). Carson diz que é uma falácia exegética supor que a última ou estrita forma da regra de Sharp tem validade universal. Ele diz, “Se um artigo rege dois substantivos ligados por kai, isto não significa necessariamente que os dois substantivos referem-se à mesma coisa, mas apenas que estão agrupados para funcionar de certa forma como uma entidade única.” (Os Perigos da Interpretação Bíblia, 78).Também, Sharp afirma sua regra como aplicável somente a pessoas, não a coisas. Como um estudioso do grego diz, “Substantivos impessoais desqualificam a construção;” ele cita At 2.23 como um exemplo específico disto (Young, Greek, 62).
Em conclusão, a superioridade da evidência mostra que “pré-conhecimento” não é equivalente a eleição ou escolha, e que em 8.29 ele se refere a nada mais do que o ato cognitivo pelo qual Deus conheceu ou identificou os membros de sua família (como distinto de todas as outras) ainda antes da fundação do mundo. Ele os indentificou pelo fato de que eles eram (seriam) aqueles que cumpriram (cumpririam) as condições exigidas para a salvação. Conhecendo através de sua onisciência divina quem estes indivíduos seriam, nesse mesmo momento ele os predestinou para serem participantes de sua família celestial glorificada através da ressurreição dos mortos após o padrão estabelecido pelo irmão primogênito, Jesus Cristo.
Tradução: Paulo Cesar Antunes
Fonte: Romans 1-8



[1] Para um tratamento mais completo da predestinação, veja GRu, cap. 9 (pp. 299-329).
[2] Igualmente Cranfield, I:432; Hendriksen, I:283-4; Bruce, 176.
[3] Igualmente Lenski, 561; Murray, I:319; Moo, I:571; Lard, 282-3.
[4] Proginosko "não é a previsão da fé que causa a distinção, e sim o conhecimento prévio que a faz existir.... Trata-se de um soberano amor distinguidor" (Murray, Romanos, 346).
[5] Para esta equação de pré-conhecido e pré-amado, veja também Hendriksen, I:283; Moo, I:569; Stott, 249; MacArthur, I:496.
[6] Contudo, não é o mesmo que a própria predestinação, contrário à crítica de não-calvinistas como Godet (324) e Lenski (560). Como os calvinistas veem, "eleger ou escolher de antemão" significa que Deus está simplesmente selecionando aqueles que ele irá abençoar, enquanto "predestinar" significa que ele está determinando exatamente como ele irá abençoá-los (Murray, I:318; MacArthur, I:497; veja Cranfield, I:432). Assim, a equivalência pré-conhecimento e eleição não torna a predestinação redundante.
[7] Veja também Cranfield, I:431; Dunn, I:482; Morris, 332; MacArthur, I:495.
[8] "Conhecer" tendo uma pessoa ou pessoas como seus objetos ocorre neste sentido 80 vezes pelo menos. Alguns exemplos são Mt 11:27; 14:30; 17:12; 26:72, 74; Lc 7:39; 10:22; 13:25, 27; 24:16, 31; Jo 1:10, 26, 31; 33, 48; 7:27-28; 14:7, 9, 17; At 7:18; Rm 1:21; 1 Co 13:12; Hb 10:30; 1 Jo 4:2, 6.
[9] Alguns exemplos desta conotação são Mc 1:24, 34; At 19:15; 1 Co 1:21; 16:12; 1 Ts 5:12. Isto corresponde a quase todos.
[10] Exemplos são Jo 17:3; Fp 3:10; 2 Tm 1:12; Tt 1:16; 1 Jo 2:3, 4, 13, 14.

http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/81-jack-cottrell/961-jack-cottrell-predestinacao-e-pre-conhecimento-comentario-sobre-romanos-8-29

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

O SIGNIFICADO DE “DE ANTEMÃO CONHECEU” EM ROMANOS 8.29

Por David N. Steele e Curtis C. Thomas


“Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou.” (Romanos 8.29-30).

            De um modo geral tem havido dois pontos de vista quanto ao significado e uso da palavra “conheceu” em Romanos 8.29. Uma categoria de comentaristas (os arminianos) mantém que Paulo está dizendo que Deus predestinou para a salvação aquele que ele previu que responderiam à sua oferta da graça (isto é, aquele que ele viu que se arrependeriam de seus pecados e creriam no evangelho pelo seu livre arbítrio). Godet, no comentário de Romanos 8.29, faz uma pergunta: “Em que sentido Deus os previu?” e responde que eles foram pré-conhecidos como certos de cumprir as condições de salvação, a fé; então pré-conhecidos pela fé”[1]. A palavra “ pré-conheceu” é assim entendida pelos arminianos como significando que Deus sabia de antemão quais pecadores creriam, etc., e com base neste conhecimento ele os predestinou para a salvação.

A outra classe de comentaristas (os calvinistas) rejeita a visão acima sobre dois fundamentos. Primeiro, porque a interpretação arminiana não está de acordo com o significado da linguagem de Paulo e segundo porque está fora de harmonia com o sistema de doutrina ensinado no restante das escrituras. Calvinistas contendem que a passagem ensina que Deus põe seu amor sobre certos indivíduos (isto é, conheceu de antemão); estes Ele predestinou para serem salvos. Observe que o texto não diz que Deus sabia ALGO SOBRE indivíduos particulares (que eles fariam isto ou aquilo), mas ele diz que Deus conhecia os próprios indivíduos — aqueles que Ele conheceu Ele predestinou para serem feitos como Cristo. A expressão “de antemão conheceu” como usada aqui é assim entendida como equivalente a “amados de antemão” — aqueles que foram os objetos do amor de Deus, Ele selecionou para a salvação.


As questões levantada pelas duas interpretações opostas são estas: Deus olhou através do tempo e viu que certos indivíduos creriam e assim os predestinou para a salvação com base nesta fé prevista? Ou Deus colocou seu amor sobre certos indivíduos e por causa deste amor por eles predestinou que eles deveriam ser chamados e concedida a fé em Cristo pelo Espírito Santo e assim serem salvos? Em outras palavras, a fé do indivíduo é a causa ou o resultado da predestinação de Deus?

A) O significado de “de antemão conheceu” em romanos 8.29
Deus sempre possuiu conhecimento perfeito de todas as criaturas e de todos os eventos. Nunca houve um tempo em que qualquer coisa do passado, presente ou futuro não fosse totalmente conhecida por ele. Mas não é seu conhecimento dos eventos futuros (do que as pessoas fariam, etc) que é referido em Romanos 8.29-30, pois Paulo claramente afirma que aqueles que Ele de antemão conheceu Ele predestinou, Ele chamou, Ele justificou, etc. Uma vez que nem todos os homens são predestinados, chamados e justificados, segue-se que nem todos os homens foramconhecidos de antemão por Deus no sentido falado no verso 29.

É por esta razão que os arminianos são forçados a adicionar alguma noção qualificadora. Eles leem na passagem alguma ideia não contida na própria linguagem tais como aqueles que Ele previu que creriam, etc., Ele predestinou, Ele chamou e justificou. Mas de acordo com o uso bíblico das palavras “conhecer”, “conheceu” e “conheceu de antemão” não há a mínima necessidade de fazer tal adição, e uma vez que não é necessária, é imprópria. Quando a Bíblia fala de Deus conhecendo indivíduos particulares, isto frequentemente significa que Ele tem uma consideração especial por eles, que eles são os objetos de sua afeição e interesse. Por exemplo em Amós 3.2, deus falando a Israel, diz: “de todas as famílias da terra somente a vósoutros vos conheci por isso eu os castigarei por causa de todas as suas maldades". O Senhor conhece sobre todas as famílias da terra, mas Ele conheceu Israel de uma forma especial. Eles foram seu povo eleito a quem Ele tinha colocado seu amor Veja Deuteronômio 7.7-8; 10.15. Porque Israel era dele de uma forma especial Ele os castigou, cf. Hb 12.5-6. Deus falando a Jeremias, disse: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci” (Jeremias 1.5). O significado aqui não é que Deus conhecia sobre Jeremias, mas que Ele teve uma consideração especial pelo profeta antes que Ele o formasse no ventre de sua mãe. Jesus também usou a palavra “conheci” no sentido de consciência pessoal, íntima. “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. 
Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7.22,23). Nosso Senhor não pode ser compreendido aqui como se ele estivesse dizendo que não sabia nada sobre eles, pois é bastante evidente que Ele sabia muito sobre eles — o caráter mal e as obras más deles; daí, seu significado deve ser: “Eu nunca conheci vocês intimamente nem pessoalmente, Eu nunca considerei vocês como objetos do meu favor ou amor. Paulo usa a palavra do mesmo jeito em I Coríntios 8.3: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele” e também II Timóteo 2.19: “O Senhor conhece os que lhe pertencem.” O Senhor conhece sobre todos os homens, mas Ele apenas conhece aqueles “que o amam, que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28) — aqueles que são seus!

O argumento de Murray em favor deste significado de “de antemão conheceu” é muito bom. “Deveria ser observado que o texto diz “aos que de antemão conheceu”; aos que é o objeto do verbo e não há adição de qualificação.” Isto, por si mesmo, mostra que, a menos que haja alguma outra razão constrangedora, a expressão “aos que de antemão conheceu” contém dentro dela mesma a diferenciação que é pressuposta. Se o apóstolo tinha em mente algum “adjunto qualificador” teria sido simples fornecê-lo. Uma vez que ele não acrescenta nenhum nós somos forçados a inquirir se os termos reais que ele usa pode expressar a diferenciação implicada. O uso da escritura fornece uma resposta afirmativa. Embora o termo “de antemão conheceu” é usado raramente no Novo Testamento, é completamente indefensável ignorar os significados tão frequentemente dados à palavra “conhecer” no uso da escritura; “conhecer de antemão” simplesmente acrescenta o pensamento de “antemão” à palavra “conhecer”. Muitas vezes na escritura “conhecer” tem um significado rico que vai além de mera cognição. Ele é usado em um sentido praticamente sinônimo de “amor”, conhecer com interesse particular, prazer, afeição e ação (cf. Gn 18.19; Ex 2.25; Sl 1.6; 144.3; Jr 1.5; Am 3.2; Os 13.5; Mt 7.23; I Co 8.3; Gl 4.9; II Tm 2.19; I Jo 3.1). Não há razão porque esta importação da palavra “conhecer” não deveria ser aplicada a “conhecer de antemão” nesta passagem, como também em 11.2 onde ela também ocorre no mesmo tipo de construção e onde o pensamento da eleição está evidentemente presente (cf 11.5-6). Quando esta importação é apreciada, então não há razão para adicionar qualquer noção qualificadora e “aos que de antemão conheceu” é visto para conter dentro de si mesmo o elemento distintivo requerido. Isto significa “aos que Ele conheceu da eternidade com afeição e prazer distintivos” e é praticamente equivalente a “aos que Ele amou de antemão”. Esta interpretação, além disso, está de acordo com a ação eficiente e determinante que é tão notável em todos os outros elos da corrente — é Deus quem predestina, é Deus quem chama, é Deus quem justifica, e é Ele quem glorifica. Previsão de fé estaria em desacordo com a ação determinante que é predicada de Deus nestes outros exemplos e constituiria um despertamento da ênfase total no ponto onde nós deveríamos menos esperar. Não é a previsão da diferença, mas o conhecimento antecipado que faz a diferença existir, não uma previsão que reconhece existência, mas o preconhecimento que determina a existência. É um amor distintivo soberano”[2]

Hodge observa que “como conhecer é frequentemente aprovar e amar, isto pode expressar a ideia de afeição peculiar neste caso; ou pode significar selecionarou determinar sobre. O uso da palavra é favorável à qualquer modificação desta ideia geral de preferir. “O povo que ele de antemão conheceu”, isto é, amou ou selecionou, Rm 11.2; “conhecido antes da criação do mundo”. I Pe 1.20; II Tm 2.19; Jo 10.14-15; veja também Atos 2.23; I Pe 1.2. A ideia, portanto, obviamente é que, aqueles que Deus particularmente amou, ao amar, distinguiu ou selecionou do resto da humanidade; ou para expressar ambas as ideias em uma palavra, aos que Ele elegeu Ele predestinou, etc.”[3]

Embora Deus conhecesse todos os homens antes que o mundo existisse, ele não conheceu todos os homens no sentido que a Bíblia às vezes usa a palavra “conhecer”, isto é, com consciência pessoal íntima e amor. É neste último sentido que Deus “conheceu de antemão” aqueles que Ele predestinou, chamou e justificou como delineado em Romanos 8.29-30.

B. Romanos 8.29 não se refere a previsão de fé, boas obras, etc.
Como foi enfatizado acima, é desnecessário e, portanto indefensável adicionar qualquer noção qualificadora tais como fé ao verbo “conheceu” [de antemão] em Romanos 8.29-30. Arminianos fazem esta adição, não porque a linguagem requeira isto, mas porque o sistema teológico deles requer — eles fazem isto para escapar das doutrinas da eleição incondicional. Eles leem a noção de fé prevista no verso e então apelam para ele no esforço de provar que a predestinação foi baseada nos eventos previstos. Assim é dito que indivíduos particulares são salvos, não porque Deus quisque eles devessem ser salvos (pois ele quis a salvação de todos), mas porque eles mesmos quiseram ser salvos. Daí a salvação é dependente em última análise da vontade do indivíduo, não da vontade soberana do Deus todo poderoso — a fé é entendida como sendo o dom do homem para Deus, não o dom de Deus para o homem.



Haldane, comparando escritura com escritura, mostra claramente que o pré-conhecimento mencionado em Romanos 8.29 não pode ter referência à fé prevista, boas obras, ou a resposta do pecador ao chamado de Deus. “A fé não pode ser a causa do pré-conhecimento, porque o pré-conhecimento é antes da predestinação, e a fé é o efeito da predestinação. ‘Todos que foram ordenados para vida eterna creram’, Atos 13.48. Nem pode isto significar o pré-conhecimento de boas obras, porque estas são os efeitos da predestinação.” Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos”; Ef 2.10. Nem pode significar pré-conhecimento de nossa cooperação com o chamado externo, pois o nosso chamado eficaz depende não apenas desta concorrência, mas do propósito e da graça de Deus, dados a nós em Cristo Jesus antes da fundação do mundo, II Tm 1.9. Por este pré-conhecimento, então, queremos dizer, como tem sido observado, o amor de Deus para aqueles a quem Ele predestina para serem salvos através de Jesus Cristo. Todos os chamados de Deus são conhecidos de antemão por Ele, isto é, eles são os objetos do seu amor eterno, e o chamado deles vem deste livre amor. “Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai”, Jr 31.3.[4]
Murray, ao rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” em Romanos 8.29 se refere à previsão de fé, está certamente correto ao afirmar que “é preciso ser enfatizado que a rejeição desta interpretação não é ditada por um interesse predestinariano. Ainda que nós admitíssemos que ‘de antemão conheceu’ significa previsão de fé, a doutrina bíblica da eleição soberana não é desse modo eliminada ou refutada. Pois é certamente verdadeiro que Deus prevê a fé; ele prevê tudo que acontece. A questão então seria simplesmente: de onde procede esta fé que Deus prevê? E a única resposta bíblica é que a fé que Deus prevê é a fé que Ele mesmo cria (cf. Jo 3.3-8; 6.44;45,65; Ef. 2:8; Fl. 1.29; II Pe 1.2). Assim sua eterna previsão de fé é pré-condicionada por seu decreto de gerar esta fé naqueles que Ele prevê como crendo, e nós somos deixados com a diferenciação que procede da própria eleição eterna e soberana de Deus para a fé e seus efeitos. 

O interesse, portanto, é simplesmente de interpretação como deveria ser aplicada a esta passagem. Por razões exegéticas nós teremos de rejeitar a visão de que “de antemão conheceu” se refere à previsão de fé”.[5]

Tradução: Francisco Alison Silva Aquino
http://pelocalvinismo.blogspot.com.br/2015/02/o-significado-de-de-antemao-conheceu-em.html



[1]  Frederic Godet, Commentary on the Epistle to the Romans, p 325.* Italics are his.
[2] John Murray, The Epistle to the Romans, Vol. I, pp. 316-318.* Italics are his.
[3] Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Romans, pp. 283, 284. Italics are his.
[4] Robert Haldane, Exposition of the Epistle to the Romans, p. 397.
[5] Murray, Romans, Vol. I, p. 316.

sábado, 8 de agosto de 2015

PRESERVAÇÃO DOS TEXTOS DO ANTIGO TESTAMENTO ATRAVÉS DOS SÉCULOS


PROVAS NO SANTUÁRIO DO LIVRO 

Por David Cloud 

É fascinante que os dois maiores testemunhos históricos da autoridade da Bíblia em hebraico Massorético, que é a base para as grandes Bíblias protestantes como a alemã de Lutero, a espanhola Reina Valera, e do Rei Tiago em inglês, estão localizados em um só lugar: o Santuário do Livro em Jerusalém. 
Eles são os detentores do grande rolo de Isaías e do Codex Aleppo.

O texto Massorético foi preservado por cuidadosos escribas hebraicos antes da invenção da impressão por tipos móveis no século 15. (A primeira Bíblia hebraica impressa apareceu em 1488). 
O Santuário do Livro foi inaugurado em 1965 pelo Museu de Israel, apenas 17 anos após a Guerra da Independência. Sua importância nacional é evidente pelo fato de que ele está localizado perto do Parlamento israelense (o Knesset). 

O teto do museu tem a forma da tampa dos jarros de barro que protegia os rolos do Mar Morto, e o corredor que leva ao museu lembra uma caverna. O branco brilhante do teto do museu contrasta fortemente com a parede preta nas proximidades, o que significa a guerra entre os Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas descrita nos escritos da comunidade essênia, encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. Os essênios erradamente acreditavam serem os verdadeiros filhos da Luz, e o moderno Estado de Israel não entende o verdadeiro significado de tais coisas. Mas a Bíblia que está no Santuário do Livro ensina que há uma guerra entre a verdade e o erro, a luz e as trevas, e que culminará no retorno de Cristo. 

É incrível e maravilhoso que as duas maiores testemunhas da autenticidade da Bíblia Massorética estão localizados no Santuário judeu do Livro no Estado moderno de Israel, porque foi para os judeus que Deus atribuiu a tarefa de preservar a Bíblia Hebraica. Em Romanos 3:1-2 Paulo chama o Antigo Testamento hebraico de "as palavras de Deus" e nos diz que estas palavras estavam confiadas aos judeus. Embora os judeus não obedecessem as Escrituras eles as reverenciavam. Josefo e Filo "nos asseguram que eles preferiam ter sido submetidos a todos os tipos de tormentos em vez de ter tirado uma carta da Escritura, ou alterar uma palavra dela" (John Kitto, Illustrated History of the Bible, editado por Alvan Bond, 1908, p . 39). Inúmeros judeus morreram em seu afã de proteger e preservar a Bíblia do Antigo Testamento. 

Essa reverência foi colocada em seus corações pelo Deus da Bíblia com a finalidade de sua preservação. Em particular, os sacerdotes judeus que foram designados como os guardiões das Escrituras (Dt 31:24-26; 17:18). 
Após o cativeiro babilônico houve um reavivamento dentro do sacerdócio judeu (Esdras 7:10) e as Escrituras do Antigo Testamento foram preservadas. "Por Esdras e seus sucessores, sob a orientação do Espírito Santo, todos os livros do Antigo Testamento foram reunidos em um cânon do Antigo Testamento, e os seus textos foram purgados de erros e preservados até os dias do ministério terreno do nosso Senhor. Por esse tempo o texto do Antigo Testamento era tão firmemente estabelecido que mesmo a rejeição dos judeus a Cristo não poderia perturbá-lo" (Edward Hills, The King James Bible Defended, 4th edition, p. 93). 

Após a destruição de Jerusalém em 70 d.C, eram os chamados Tannaim (professores), escribas judeus que guardaram as Escrituras do Antigo Testamento. Esses escribas "copiaram o texto do Antigo Testamento com grande precisão" (Edward Hills, The King James Bible Defended, 4th edition, p. 93). Os Tannains foram seguidos por outros escribas chamados Amorains (expositores). Embora tenham exaltado a tradição do homem acima da Escritura, na prática diária, veneraram muito a Escritura e a preservaram de geração em geração. (Foi nessa época que o Talmude foi produzido, o qual canonizou a tradição rabínica).

No começo do século VI, foram os Massoretas (tradicionalistas), que zelosamente guardaram o texto hebraico e o passaram de geração em geração. É a Bíblia Massorética hebraica que foi adotada pelos cristãos e utilizada nas primeiras Bíblias impressas. 
Os massoretas eram famílias de estudiosos hebreus que tinham centros na Palestina, Tiberíades e Babilônia. O tradicional texto hebraico Massorético recebe o seu nome desses estudiosos. Um dos mais famosos foi Ben Asher em Tiberíades, que "trabalhou para produzir uma cópia correta das Escrituras". Desde o século 12 em diante o texto de Ben Asher foi recebido como Bíblia Hebraica. 
Os massoretas tinham um grande cuidado na transcrição do Velho Testamento. Eles desenvolveram regras mais rigorosas para as cópias, a fim de manter o texto puro. As seguintes regras são da "General Biblical Introduction" por Herbert Miller (1937), com informação adicional de outras fontes. 
O pergaminho deve ser feito da pele de animais limpos; deve ser elaborado somente por um único judeu, e as peles devem ser presas por tiras colhidas de animais limpos.

Cada coluna não deve ter menos de 48 nem mais de 60 linhas. A cópia toda deve ser alinhada primeiro.

A tinta não deve ser de outra cor além de preto, e deve ser preparada de acordo com uma receita especial.

Nenhuma palavra ou letra pode ser escritas da memória; o escriba deve ter uma cópia autêntica diante dele, e ele deve ler e pronunciar em voz alta cada palavra antes de escrevê-la. 

Ele deve reverentemente limpar sua pena cada vez antes de escrever a palavra "Deus" (Elohim) e deve lavá-la inteira antes de escrever o nome "Jeová" para que o Santo Nome não seja contaminado.

Cada palavra e cada letra era contada, e se uma letra era omitida, ou uma extra inserida, ou se uma letra tocasse outra, essa seção do manuscrito era condenada e destruída. Um manuscrito Massorético hebraico do Gênesis contém 4.395 linhas em 43 colunas, com 27.713 palavras e 78.100 letras. 

Miller conclui com esta observação: "Algumas dessas regras podem parecer radicais e absurdas, mas mostram o quão sagrado era a Palavra de Deus do Antigo Testamento sob a sua custódia, dos judeus (Rm 3:2), e eles nos dão forte incentivo a acreditar que TEMOS O VERDADEIRO ANTIGO TESTAMENTO, O MESMO QUE O NOSSO SENHOR TINHA E QUE FOI ORIGINALMENTE DADO POR INSPIRAÇÃO DE DEUS "(General Biblical Introduction, 1937, p. 185). 


O GRANDE ROLO DE ISAÍAS 

O Grande rolo de Isaías foi encontrado em uma caverna em Qumran perto do Mar Morto, em 1947. Ele contém todo o livro de Isaías. Foi escrito em 17 pedaços de pele de carneiro costurada para formar um rolo medindo aproximadamente 7 metros de comprimento. Ele está no Santuário do Livro, e um fac-símile realista está em exibição na sala principal. Foi datado pelo menos quatro vezes pelo método do carbono 14 e os resultados têm variado de 335 a 107 a.C. Outras técnicas de datação (por exemplo, material de escrita e estilo, associação de artefatos) dataram para 150 a 100 a.C. Assim, esse rolo foi escrito pelo menos um século antes de Cristo, se não dois ou três séculos. 

Todos os livros do Antigo Testamento foram encontrados no Mar Morto, exceto o livro de Ester e sessenta a sessenta e cinco por cento dos pergaminhos que representam o texto Massorético. Isto é surpreendente, pois desde os primeiros códices hebraicos do texto massorético usados pelos estudiosos dos séculos 16 e 17 (como o Aleppo) foram escritos mais de mil anos após o Mar Morto. 

As diferenças entre os pergaminhos conservados do Mar Morto e do texto Massorético são extremamente pequenas, em grande parte pertencentes a ortografia ou gramática, a omissão ou a adição de uma palavra, ou a mistura de letras hebraicas. Por exemplo, um dos dois rolos de Isaías encontrado na gruta 1 deixa de fora um "santo" de Isaías 6:3, obviamente, um descuido dos copistas. Comparando Isaías 53 no Grande rolo de Isaías de 100 a.C e o Codex Aleppo de 900 d.C, existem apenas três letras que são diferentes. Quanto ao Grande Rolo Isaías e sua concordância com o texto massorético, o Dr. Ernst Wurthwein chama de "impressionante" e Adolfo Roitman chama de "extraordinariamente próximos" (Wurthwein, The Text of the Old Testament, 1979, p. 144; Roitman, The Bible in the Shrine of the Book, 2006, p. 43). 


O CODEX ALEPPO

A outra testemunha da grande autoridade da Bíblia em hebraico Massorético no Santuário do Livro é o Codex Aleppo (conhecido em hebraico como Ha-Keter, ou seja, a Coroa). Ele foi feito por volta de 920 d.C, em Tiberíades, que era um centro de estudos judaicos depois da destruuição de Jerusalém. Foi também um centro para a criação do Talmude, que é uma coleção de tradição judaica que foi elevado (na prática) a uma autoridade igual à das Escrituras, e que Jesus condenou fortemente em Mateus 15 e 23. 

O manuscrito Aleppo foi copiado por Shlomo Ben Boya'a, e as marcações de vogais foram adicionadas pelo renomado mestre escriba Aaron ben Asher. Durante quase mil anos "era usado como texto padrão para a correção dos livros", enquanto gerações de escribas fizeram peregrinações para consultá-lo" (Roitman, p. 62). Ele estava em uma sinagoga no Cairo, Egito, por volta de 1099 a 1375, quando foi transferido para a sinagoga em Alepo, na Síria. Aí ficou em uma caixa de metal duplo fechado na "Caverna de Elias" (de acordo com a tradição, Elias foi exilado lá). As chaves eram confiadas a dois homens proeminentes e a caixa só poderia ser aberta na presença de ambos sob a autoridade dos líderes da sinagoga. Em 2 de dezembro de 1947, após a aprovação da resolução da ONU para estabelecer um Estado judeu, a sinagoga foi destruída por furiosos muçulmanos durante as revoltas que irromperam em todo o mundo árabe. Os manifestantes invadiram a sinagoga, quebraram a caixa de ferro e rasgaram as páginas do Codex jogando-as no chão. A maior parte do Pentateuco foi perdido, assim como algumas outras partes. Alguém recuperou o Codex danificado e ele ficou escondido por muitos anos. Em 1958, foi contrabandeado para a Turquia escondido em uma máquina de lavar, e de lá trazido a Jerusalém. Foi laboriosamente restaurado ao longo de um período de seis anos pelo Museu de Israel, e hoje está em exposição no Santuário do Livro. 

Estudiosos admitem agora que o texto Massorético foi a Bíblia Hebraica padrão no fim do período do Segundo Templo. Isso foi comprovado não só pelo Mar Morto, mas também por pergaminhos encontrados em Massada, Murabba'at Wadi, Nahal Hever e Tze'elim Nahal. Adolfo Roitman, diz que o texto Massorético "aparentemente tornou-se o texto oficial para a corrente principal do judaísmo no final do período do Segundo Templo" (The Bible and the Shrine of the Book, p. 56).

À luz de Romanos 3:1-2, isso é um reconhecimento importante! Eruditos liberais veem o texto Massorético e as concorrentes Septuaginta e textos samaritanos como representando textos igualmente legítimos. Eles acreditam que é apenas porque os rabinos proibiram estes que o texto massorético prevaleceu. Eles veem isso como um acidente da história. Por exemplo, Geza Vermes diz: 

"[A existência de ambos os textos Massorético e Septuaginta nos rolos do Mar Morto] sugere que os textos hebraicos da época de Qumran correspondam ao samaritano e as antigas versões do grego divulgadas conjuntamente; assim, reforçam a teoria de que o proto-Massorético, Samaritano e Septuaginta - formas de texto em hebraico, co-existiram harmoniosamente antes da censura rabínica eliminar as duas últimas em torno de 100 d.C "(The Story of the Scrolls, p. 106). 

Isso é quase exatamente o que os estudiosos liberais do Novo Testamento acreditam sobre o texto grego de Alexandria. Eles acham que o Texto Tradicional Grego das Bíblias protestantes prevaleceu somente porque foi proclamado oficial pelos concílios e lançado pelas autoridades da Igreja. Eles sustentam esta opinião porque não acreditam que o Antigo e o Novo Testamentos foram dados por inspiração divina e preservados pelo mesmo Deus que é o autor deles. A Bíblia para eles é um produto puramente humano, e estudam apenas considerando o elemento humano. 

Mas, à luz da declaração de Paulo em Romanos 3:1-2 e das muitas promessas na Bíblia que Deus iria preservar a Sua Palavra, sabemos que Deus estava supervisionando a transmissão do Antigo Testamento, e guiou os rabinos judeus, mesmo em sua incredulidade e cegueira espiritual, para preservar a Bíblia Massorética. 

As autoridades judaicas que atuam no Santuário do Livro, acreditam que a exposição do Codex Aleppo é o cumprimento de Isaías 2:3: "porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do SENHOR." ("The Wandering Book: The Aleppo Codex,"http://www.english.imjnet.org.il/htmls/article_450.aspx?c0=13806&bsp=13246&bss=13806&bscp=12940, viewed May 5, 2010). 

Na verdade, essa grande profecia será cumprida no retorno de Cristo, quando "nos últimos dias que se firmará o monte da casa do SENHOR no cume dos montes, e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações." (Isaías 2:2). É óbvio que isto não se refere aos nossos dias, quando Israel é uma das mais desprezadas nações da face da terra!

Tanto o Grande Rolo de Isaías quanto o Codex Aleppo foram digitalizados e estão disponíveis no site do Museu de Israel web:http://www.imj.org.il/shrine_center/

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte: The Way of Life
http://www.discernimentobiblico.net/PROVAS%20NO%20SANTU%C1RIO%20DO%20LIVRO.html