quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Bancário é o bode expiatório do governo

Bancário é o bode expiatório do governo

Os bancários chegaram ao 30º dia de greve forte nesta quarta-feira e os banqueiros insistem em propor um reajuste abaixo da inflação, com perdas para os trabalhadores. A tentativa de rebaixamento dos salários pelos bancos possui um importante aliado, ou mesmo um protagonista “oculto”: o governo Temer.

Não é verdade que os bancos não podem pagar a inflação. Os bancos estão se somando ao governo para derrotar a política de reposição salarial, que é a intenção deste governo golpista para todas as categorias. 

Mais ou menos como foi em 1994, na greve dos petroleiros, quando o sindicato da categoria fez a primeira greve na era FHC e o governo impediu a Petrobras de dar o reajuste, exatamente para manter o arrocho salarial que pretendiam para todos os trabalhadores.

Os bancários estão sendo penalizados, feitos de bode expiatório, por um governo que quer aplicar uma política econômica de retirada de direitos e falsa austeridade. É a primeira categoria que se insurge contra essas questões. Aí eles [governo] propõem congelar gastos públicos por 20 anos, o que significa congelar investimentos em educação, saúde e também salários, de trabalhadores públicos e privados. É contra isso que estamos lutando. Contra essa política econômica equivocada, que diminui o fluxo de entrada de recursos dos salários na economia e, por consequência, reduz o consumo.

 Estou me referindo à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, de autoria do governo Temer, que tramita na Câmara dos Deputados e que prevê o congelamento dos investimentos do Estado por duas décadas.

Sergio Domingos Vieira.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

GESTÃO EMPRESARIAL por Max Gehringer

GESTÃO EMPRESARIAL 
por Max Gehringer

Foi tudo muito rápido.
A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou.
Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso portal.
Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas.
Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas.
Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:
- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo.
Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está
me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?
- No céu.
- No céu?...
- É.
- Tipo assim, o céu. Aquele com querubins voando e coisas do gênero.
- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências, nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular,
a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.
Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação,
de que aquela situação era inaceitável.
Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada
para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)
- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem.
A sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...
- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo "executiva" ?
- Já ouví falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight.
A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial.
Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica,
por assim dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta.
Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes
oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistêmica.
- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia.
- Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá.
- Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
- Ah, não sabemos.
- Headcount, então, não deve constar em nenhum versículo, correto?
- Hã?
- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão gera desmotivação.
Com o tempo isto aquí vai acabar virando uma anarquia.
Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa
de targets individuais e avaliação de performance.
- Que interessante...
- Depois, mais no médio prazo, assim que os fundamentos estiverem sólidos e o pessoal começar a reclamar
da pressão e a ficar estressado, a gente acalma a galera bolando um sistema de stock option,
com uma campanha motivacional impactante, tipo:
"O melhor céu da América Latina".
- Fantástico!
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e de um organograma funcional,
nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.
- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais
e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do
investimento do Grande Acionista... Ele existe,certo?
- Sobre todas as coisas.
- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech,
redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento
de produtos alternativos de alto valor agregado.
O mercado telestérico por exemplo, me parece extremamente atrativo.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível.
Com um pacote de remuneração atraente, é claro.
Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias de praxe.
Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro.
O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.
- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não.
- Significa que você terá um futuro brilhante... se for trabalhar com o nosso concorrente.
Porque você acaba de descrever, exatamente, como funciona o Inferno...                    Autor: Max Gehringer